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A força da loucura do mineiro, por Hélio e Fernando

11 de julho de 2019

Hélio e Fernando

Naquela noite de dezembro de 1987, no Othon Palace Hotel, após o “Sempre Um Papo” que era para ser um "Encontro Marcado" com os “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, restaram dois: Fernando Sabino e Hélio Pellegrino. Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos afinaram. Mesmo sabendo da importância: era centenário de Belo Horizonte. 

A discussão era sobre a loucura de ser mineiro. Fernando e Hélio se digladiavam frente à Lygia Marina e Lya Luft, suas esposas, à época. Eu, de penetra. Um penetra muito feliz, por sinal. Fernando mandou um caso de um sujeito que cobrava dívidas com apenas um gesto: ficava durante dias sentado no meio fio na frente da casa do devedor, sem tomar banho, nem nada. Toda cidade ficava sabendo que o morador devia na praça. É claro que a dívida acabava sendo paga rapidamente.

Hélio mandou uma história que considero a melhor ilustração da loucura do ser mineiro. A filha de um conhecido comerciante fez 18 anos. Linda, recatada, inteligente. Queria cursar Medicina e o pai não permitiu. Conformou-se com o curso Normal, todas eram normais, naquela época. Mas decidiu sair. Simples e naturalmente, sair. Passear na Praça, à noite, ir à casa de amigas, sair, se divertir. O pai observava, estupefato. Noite destas, ficou à espreita. Chegou a moça às 21h, 22h, ele estourou:

- Filha minha não vai cair na boca de Matilde! Não pode sair mais! Só pode sair de dia!, sentenciou. 

Com a paciência que Deus lhe deu, ela argumentou que era maior de idade, que tinha direitos, condições e responsabilidade para sair, passear, frequentar.

O pai foi taxativo:

- Se sair de novo, não precisa voltar. Está deserdada.

Com paciência e amorosidade, ela novamente deu seus motivos e vaticinou:

- Pai, eu vou sair amanhã, de novo. Se o senhor me esperar, e me recriminar, vou fazer uma coisa muito simples: entro no quarto e nunca mais saio.

E assim se deu: ela saiu, voltou às 22h, e pai estava à espera, com todas as pedras do mundo na mão. Chamou-a se vagabunda, vadia, pervertida.

- O que ela, fez? Perguntou Hélio, saltando do assento:

- Trancou-se no quarto e só saiu 35 anos depois, quando o pai morreu!

Fernando Sabino, por incrível que pareça, emudeceu. Todos emudecemos. Hélio sentou-se, brando, certo e convencido de que os mineiros, mais que todos, são loucos. Nesta altura, sem nenhuma exceção.