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A geração envergonhada e a opinião divergente de Heloisa Starling

11 de agosto de 2019

 

“O verbo ou o fato. Hora de escolher como agir” – POIS É.. com esta frase encerro o artigo no portal do jornal “O Globo”, deste domingo, dia 11.08. Acontece que, antes de publicar, convidei a historiadora Heloisa Starling para escrever comigo. E só recebi a sua opinião hoje, onde ela discorda completamente de tudo que escrevi!  Sendo assim, aqui para o Mondolivro, vão as duas versões. E confesso: os seus argumentos são mas consistentes que os meus. Ou não? Ou valem as duas? Decidam. A.

 

POR MOTIVOS escatológicos, ficou claro que a imaginação delirante do  presidente da República vai além de todos os limites pensados e imaginados. Está claro que não terá fim, nesta encarnação, o indetectável volume de asneiras e flatulências verbais que ele vai eliminar nos nossos ouvidos. Certamente, será lembrado, Post Mortem, por causa delas. E nossa geração, sem sombra de dúvida, a que promoveu o ingresso deste personagem histriônico na cena política.

 

Mas ainda existe esperança. Defendo bravamente a tese da subtração do protagonismo digital, por parte de todos, de forma espontânea. Imagine se todas as alegorias que ele disser daqui para frente não renderem nenhuma linha na imprensa? Ou nenhum comentário no Twitter? Imagine o exército virtual saindo em sua defesa ou louvação e não encontrar adversários? Se ninguém, mas absolutamente ninguém replicar, ou retuitar, ou compartilhar as bravatas na forma de fake news? Como ficaria a subjetividade de uma pessoa tão autocentrada?

 

Na história do Brasil existiram figuras públicas desconcertantes com esta. Mas a maioria com um travo alinhado ao humor, como José Maria de Alkimin, Hélio Garcia, Newton Cardoso. Mesmo o Lula, com um humor puxado para o sarcasmo, tem esta marca. Mas em Bolsonaro não há humor algum – há a perversão, a maldade aleatória, a crueldade do preconceito.

 

Ficaremos, todos, até 2023, interagindo com as suas falas ensandecidas? Não é melhor separar o verbo do fato? Ou seja, nenhuma linha para o que ele fala e o todo o foco no que ele faz? O que ele diz é uma forma inteligente de dispersar as ações – e elas estão sendo firmadas, à revelia da Constituição, em todas as áreas de Governo, em especial, no Meio Ambiente e na Educação. Ou como interpretar o bloqueio de compras de livros escolares? Ou a legalização da mineração em terras indígenas?

 

Me recuso a ser visto, no futuro, como parte de uma geração de envergonhados, que permitiu este ultraje histórico acontecer. Este simulacro, este escárnio.

 

O verbo ou o fato. Hora de escolher como agir.

 

E agora, Heloísa Starling:

 

Tenho dúvidas se o argumento funciona. Por algumas razões.

 

Uma, ele não é histriônico nem delirante. Essas falas são feitas deliberadamente para destruir princípios e referências. Faz parte do projeto de destruição que ele encabeça.

 

Não tem como ignorar um sujeito que ocupa o cargo de presidente. Ele é profundamente perigoso. Não informar sobre a banalidade do mal que ele encarna e revelar isso todas as vezes que acontecer vai significar conivência ou minimizar o mal.

 

Nunca existiram na história figuras públicas como essa. Nenhum dos personagens que você cita podem ser equiparados a ele. Nivelar os personagens permite dar ao Bolsonaro um padrão dentro do mundo democrático. Ele não tem esse padrão. Você está lidando com algo inédito na história do Brasil e impensável até então. Nenhum dos nomes que você cita se propôs a fazer um governo voltado para a destruição e a morte.  Nós não percebemos, mas isso aconteceu na eleição. O sujeito que votou em branco ou nulo igualou Bolsonaro e Haddad. Não podia. Não são iguais. Ele não pode ser nivelado nem mesmo ao Medici que era um ditador ou ao Plinio Salgado que era integralista. Os dois tinham um projeto de Brasil – desgraçado de ruim, mas tinham. O projeto Bolsonaro é desertificação e morte.

 

O que você acha?

 

Eu, Helô? Eu pergunto aos leitores: o que vocês acham…