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A poesia vulcânica de Mariana Paz em “Verbo do Rio”

21 de outubro de 2019

 

Afonso Borges relembra a infância nos versos de Mariana Paz,  neta de seus padrinhos Wilma e João Nascimento Pires (dono do “Banco Mineiro do Oeste”).

 

Mariana entrega aos leitores o lindíssimo livro de poemas “Verbo do Rio” (Casa’s Edições), no qual também faz as ilustrações. E em meio a toda esta balbúrdia, o colunista faz uma coisa diferente: lê alguns poemas curtos na Rádio BandNews BH.

 

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Ou, em Belo Horizonte, na Livraria Quixote.

 

Abaixo, o pósfácio de Júlia Panadés

 

As palavras se movem atraídas pelo destinatário. A incumbência leva à escrita, o empenho ganha um corpo de palavras, a leitura em voz alta captura atmosferas, o fluxo movente se reescreve em ondas, acontece. Minhas mãos ensaiam o modo mais delicado, entre a rasura e a profundidade, de tocar o “Verbo do rio”, livro de Mariana Paz. Estávamos as duas no ateliê onde o livro foi editado quando ela me encomendou uma escrita “para a semana que vem”, pois já está tudo pronto, só falta a sua apresentação. Aproveitei nossa mútua confiança para formular três perguntas, anotadas de improviso no caderno. Com a caneta ainda nas mãos e o caderno de notas aberto, liguei o gravador de voz.

 

Como o poema começa para você? “No instante do poema”, ela disse. “No instante que atravessa o tempo”,  no instantâneo de uma passagem entre um estado e outro, na vivência-vidência prestes a escapar, no movimento vertiginoso, na emoção, na devoção, na comoção do corpo. O poema vem no encalce de uma sensação, no intervalo aberto, no vão de uma quase imagem. “Algumas vezes eu escrevo, outras eu esqueço.”

 

Você escreve poemas dedicados, ofertados… como o destinatário atua no seu texto? “As pessoas chegam ao poema. O poema é uma visita” e uma contemplação. Mas não são apenas pessoas que chegam, chegam também sensações. As sensações caminham e o poema acontece na atenção ao que vem. É necessário hospedar o corpo de palavras enquanto ele vai se formando, subitamente e aos poucos. É importante acolher o sumo do poema e também os modos estranhos que ele assume.

 

E este livro? Que coisa é este livro? “Este livro é a neblina no jardim do quintal”; é a estação chuvosa em uma tarde nublada, quando as horas crescem em meses e os meses crescem em anos; é a ramagem escalando os muros e as crianças nascidas na curvatura materna. Este livro é a ancoragem das entrelinhas e a salvação impressa dos cadernos sem pauta; é um trabalho de corte/costura, matéria afetivamente composta por pessoas e para pessoas; é o vento que abre a vista para além do quintal; é a perda do controle sobre o sentido e a confiança na aparição, na revelação, na dança. “Verbo do rio” é uma experiência entre a perdição e a ancoragem, é uma rede trançada entre o chão e o vão.

 

Para dar ao livro um texto de boas vindas não precisei ouvir a gravação com as respostas de Mariana. Usei apenas minhas notas da conversa e a alegria de anunciar um livro recém-nascido. Também precisei colher com as mãos a memória das pedrinhas do riacho, e observar a perda do frescor translúcido em opacidade. Pude ler a sorte do poema inscrita na ruga de um seixo branco: “Palavra que cai/da neblina da montanha. O poema canoeiro/atravessa o rio da morte”.

 

Julia Panadés

Outono, 2019