fbpx

A sensual “Elegia” e o segredo do poeta

5 de maio de 2020

 

Tempo de confinamento é isso. A gente fica com o fuso trocado, memórias vindo e voltando, sem ordem. Noite destas,  acordei as três horas da manhã, com uma música na cabeça.

 

Peguei o celular e coloquei para ouvir “Elegia”, cantada por Caetano Veloso. Com diria Mário de Andrade, ouvi umas 300 vezes.  A letra é alguma coisa perto da perfeição. E fui pesquisar a história da música.

 

E descobri, surpreso, que não é do Caetano. A melodia é do Péricles Cavalcanti e a letra é uma tradução de Augusto de Campos de um poema de um certo John Donne.

 

E sabem quem foi John Donne? Um dos mais um dos mais importantes poetas metafísicos do século dezesseis da Inglaterra. Aí o encantamento redobrou. O poema se chama “Elegia: indo para o leito” e foi escrito ali por volta de 1620. Não é de enlouquecer?

 

O Péricles colocou melodia no seu último trecho – o poema é longo e o mérico é de Augusto de Campos que diz sempre, ao lado de seu irmão, falecido Haroldo de Campos, que não fazia tradução. Fazia transcriação.

 

Augusto está aí, firme forte e, em fevereiro do ano que vem completa 90 anos.

 

Por favor, ouçam, palavra a palavra, o poema Elegia. E aproveitem para descobrir – ou redescobrir – a obra genial de John Donne.

 

E ouçam “Elegia”, cantado por Caetano Veloso, teclando AQUI.

 

Aqui, o poema inteiro, traduzido por Augusto de Campos:

 

Elegia: indo para o leito

John Donne

 

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

 

E para ouvir o podcast Mondolivro, com Afonso Borges, na Rádio BandNews BH, tecle nas plataformas abaixo:

 

SoundCloud

Spotify

Apple Podcast

CastBox

 

Leia também no portal do jornal “O Globo”, teclando AQUI.