A Suécia vai à Guerra enquanto o Brasil espera o “Dia Zero”, diria Manoel de Barros

27 de maio de 2018

Sobre o Dia Zero

Ganhei do Duílio uma peça de picanha maravilhosa outro dia. Hoje decidi fazê-la. Mariana tirou do freezer, deixou descansar a tarde toda. Descongelada, parti ao meio. Reservei a metade na geladeira, bem acondicionada no papel alumínio, coloquei a outra na tábua. Dei o primeiro corte no bife. Lacerei o dedo. Parei e decidi enfrentar o tremendo incômodo que uma notícia de ontem me provocou: “Suécia orienta população a se preparar para guerra e distribui panfletos de alerta”. 

 Não, não é uma manchete de 1938. Pior, se me recordo, a Suécia subiu no desequilibrado cabo de aço na neutralidade e foi um dos poucos países que não entraram na II Guerra Mundial. Serviu a dois senhores: vendeu minério de ferro para Alemanha produzir arma s e tanques e, ao mesmo tempo, recebeu centenas de refugiados judeus. E agora, o panfleto, intitulado If Crisis or War Comes (Se a Crise ou a Guerra Chegar) foi distribuído a 4,7 milhões de famílias e alerta: "Pense em como você e as pessoas ao seu redor seriam capazes de lidar com uma situação na qual os serviços normais da sociedade não estão funcionando como de costume”. E não foi apócrifo! Foi obra do governo sueco. E deita conselhos sobre estoque de comida, conservação de alimentos, busca de abrigos públicos e formas de se aquecer caso falte energia elétrica e comunicações. E justifica o alarme em preocupações sobre as atividades militares na Rússia, ascensão do terrorismo e mesmo as fake news. 

Corri para Dorrit Harazim, uma espécie de oráculo do bem. Seu texto “Desabastecimento de poder e de visão”, em “O Globo”, serve de bisturi e abre a ferida. Ela invoca Barão de Mauá e o discurso em 1854, sobre a importância das estradas de ferro e denuncia o desmazelo com o transporte ferroviário através da história. Salta para o outro lado do Atlântico e se concentra nos 25 litros diários que as famílias na Cidade do Cabo, na África, recebem, hoje, por causa da falta de chuva. Fala do “dia zero” e  pergunta: “Quem somos em tempo de necessidade?”

Na outra ponta do século, em 1861, o Rio de Janeiro enfrentava a sua maior crise hídrica. D. Pedro II, num gesto visionário, desapropriou as chácaras dos nobres nas terras altas e promoveu ali o maior projeto de reflorestamento de então. E criou o Parque da Tijuca e das Paineiras, preservando as nascentes. 

Enquanto deixo a água correr no dedo cortado, o sangue estanca. Absorto, vejo a fragilidade, a extrema fragilidade da nossa espécie à mercê de dois líquidos da natureza: água potável e petróleo. Enquanto isso, a televisão ligada no quarto grita o alerta dos distribuidores sobre o prazo de normalização do abastecimento de gasolina no País: cinco dias, no mínimo. E não contamos o primeiro dia, ainda, o chamado “dia zero”.

Mão molhada, desisti da carne. Peguei Manoel de Barros, encasulei. 

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