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Abuso – Por Erica Toledo

16 de janeiro de 2019

 

Era um acidente grave em uma rodovia. Eu, repórter jovem e iniciante, fui até o policial rodoviário para conseguir informações. Passando pelos carros destruídos, ele explicava e eu anotava. Até que paramos junto a um dos veículos e, sem que eu pudesse prever, ele levantou, de uma só vez, o pano escuro que cobria um corpo. Usou o pretexto de procurar pelos documentos da vítima, mas sua intenção sádica era mesmo de me causar desconforto.

Quero usar dessa imagem para tratar de um assunto muito pior do que a pequena perversão do policial. Quero falar do abuso sexual na infância. E não apenas dos cometidos com violência, que são registrados nas unidades de saúde (pelo menos 30 mil casos por ano no Brasil). Mas aqueles outros bem mais dissimulados, que acontecem todo o tempo e em número infinitamente maior: uma passada de mão, uma encostada, senta aqui no meu colo, olha essa revista.

Essas cenas, que muitas vezes não chegam a ser mencionadas pelas crianças e outras vezes não merecem a atenção dos responsáveis, podem ser causa de muita angústia décadas depois.

É que o tecido que encobre o assunto sexual é levantado num golpe. Como uma cortina aberta de repente para um palco de encenação adulta. Uma porta que se escancara para algo intraduzível naquela idade. Descoberto aos poucos, no tempo natural, o sexo não precisa ser um trauma. Mas, nos episódios precoces, ele é apresentado e registrado como uma agonia de excitação e culpa.

O sobressalto pode transformar o sexo num registro a se evitar a todo custo e pode impedir, mais tarde, na adolescência, que a pessoa viva os processos normais de busca de satisfação no próprio corpo, de curiosidade pelo outro e de atração pela descoberta compartilhada. O tesão é congelado antes de tomar a forma de relacionamento. E isso pode explicar as expressões usadas por alguns adultos para descrever sua vida sexual: um balde de água fria, um teatro mecânico, sensações anestesiadas.

Não por acaso, essas pessoas também se queixam de estarem paradas nas outras áreas da vida. É o que acontece quando a libido é reprimida. E, para não dizer que sou freudiana demais, vamos lembrar que a yoga, criada alguns mil anos antes de cristo, já era praticada como forma de estimular o fluxo da energia sexual para promover vitalidade e equilíbrio. Claro. Ela é força, impulso. Por isso, não é só em nome do prazer que acredito em voltar aonde esse processo parou e corrigi-lo. É pela realização de todos os outros potenciais guardados.

Vale a pena, para as pessoas que passaram por situações assim, se permitirem uma espécie de adolescência tardia. Fazer uma nova aproximação com o sexo, dessa vez, livre da imposição da vontade alheia, da vergonha e do julgamento moral. Um reencontro com a alegria do corpo para, finalmente, descortinar o desejo.

Sem susto e por escolha própria, talvez seja possível descobrir que existe muita beleza por baixo do pano.

 

Erica Toledo, jornalista e psicanalista, escreve o  www.sanguinea.com.br, do qual retiramos, com seu consentimento, o texto acima. E agradecemos a gentileza. A.