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Aos 30 anos da morte de Chico Mendes, Zuenir e Genésio, por Mauro Ventura

26 de dezembro de 2018

Estou me habituando a furtar os textos de Mauro Ventura do seu perfil no Facebook. É um tremendo desperdício não estar em um jornal de circulação nacional. Enquanto isso, contribuo com meus pequenos furtos, autorizados por ele. Neste relato, um filho fala do pai e do seu dilema. No pano de fundo, o assassinato do seringueiro Chico Mendes e a coragem de um menino. Leiam. Um dia eu conto a parte que cabe neste minifúndio. A.

Por Mauro Ventura:

Em 1987, assisti a uma palestra na PUC de um personagem até então pouco conhecido. Era seringueiro – não sabíamos bem o que isso significava – e pioneiro da causa ambiental. Por conta disso, havia ganhado prêmios nacionais e internacionais. Não me lembro do que falou naquele dia, mas certamente denunciou a devastação da Floresta Amazônica e narrou as ameaças de morte que vinha recebendo.

Sei que no ano seguinte, no dia 22 de dezembro, há 30 anos, ele foi assassinado em Xapuri com um tiro de escopeta por Darcy Alves da Silva a mando de seu pai, o fazendeiro Darli.

Em 1989, meses após sua morte, Chico Mendes voltaria a fazer parte do meu cotidiano. Foi quando meu pai apareceu lá em casa afirmando para mim e para minha irmã, que tínhamos na época 26 e 25 anos: “Vocês acabam de ganhar um irmãozinho”. O mais novo membro da família, Genésio Ferreira da Silva, um adolescente acreano de 13 anos, era a testemunha-chave do assassinato do líder seringueiro.

Meu pai havia ido ao Acre pelo “Jornal do Brasil” para cobrir a morte de Chico Mendes. Lá descobriu Genésio, que havia sido entregue aos 7 anos pela mãe para ser criado por Darli. O menino assistira à preparação do assassinato e contara tudo à polícia. Desprotegido e vulnerável, era questão de tempo até ser morto. Para que isso não acontecesse, meu pai e o jornalista Elson Martins praticamente sequestraram o garoto num pequeno avião alugado, com a autorização do juiz Aldair Longuini, e o entregaram ao comandante da PM em Rio Branco, o coronel Roberto Ferreira da Silva, que aceitara protegê-lo.

Mas, um mês depois, o coronel ligou para contar que descobrira um plano, dentro da própria PM, para executar Genésio. E não adiantava transferi-lo para o quartel do Exército: o risco seria o mesmo ou maior. Diante daquela situação-limite, meu pai optou por trazê-lo para o Rio, onde permaneceu sob sua tutela até os 18 anos.

Genésio foi de uma coragem assombrosa, como meu pai conta no livro “Chico Mendes – Crime e castigo”. Apesar das pressões, confirmou no julgamento o que disse à polícia, levando Darcy e Darli a serem condenados a 19 anos cada.

Mas a transferência de Xapuri para o Rio não foi nada fácil. Genésio vinha com um passado problemático – foi criado por um “pai” que encostava a faca em sua barriga por causa da menor falta – e agora vivia numa terra distante e numa cultura estranha. Entrou em pânico quando atravessou pela primeira vez um túnel (“aquele buraco que não tinha fim”), não conhecia elevador e vaso sanitário, e só acreditou que a água do mar era salgada quando provou. Como diz meu pai, ele “vivia em estado de eterno exílio, e era perseguido por saudade visceral de sua terra e por recorrente melancolia”. A inaptidão e o choque cultural levaram-no à bebida e a internações em centros de recuperação e comunidades terapêuticas. Por questões de segurança, estudava em locais sigilosos – mas as arruaças fizeram com que fosse expulso de várias escolas, em oito ou nove cidades. A cada vez, arrependia-se das confusões em que se metia e deprimia-se do mal que causava à meu pai, que no entanto ressalva:

– Genésio sempre cumpriu o incômodo e arriscado papel de testemunha.

Hoje Genésio tem 43 anos. Em 2015 lançou o livro “Pássaro sem rumo – Uma Amazônia chamada Genésio” (Instituto Vladimir Herzog Editora), que começou a escrever aos 27 anos. Ali, conta como foi a transição radical para uma “nova família, com costume, vocabulário e cultura diferentes”. Ele, que nunca tinha tido festa de Ano Novo, celebrou a primeira já adolescente, com a gente. Quando fez 15 anos, ganhou de minha mãe um relógio – até então o único presente que ganhara na vida tinha sido um revólver 22 que recebeu do ex-cunhado, no dia em que completou 13 anos. A bebida, escreve, era sua fuga.

E olha que foi acolhido com afeto, como diz: “A família Ventura era envolvida por um grande sentimento de amor, carinho e união, um exemplo de ternura para emocionar qualquer pessoa que estivesse com uma estrutura de vida muito abalada e frágil como eu estava logo que cheguei ao Rio.”

Mas ele nunca conseguiu se adaptar à vida na cidade grande. No livro, Genésio faz a autocrítica:

– Zuenir foi pai, mãe, amigo e irmão. Infelizmente não fui capaz de dar a alegria necessária que ele merecia.

Meu pai observa que esta foi a “mais sofrida e difícil história de viver e contar” em seus 87 anos de vida. Mas que não se arrepende nem um pouco:

– Eu, que levei a vida dizendo que repórter não podia se misturar com a notícia, trouxe a notícia para dentro de casa. Genésio ia ser assassinado. Eu tinha duas opções, descrever a morte dele ou evitá-la. Preferi a segunda.