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As histórias de João Saldanha e o Gol de Letras de Tostão

8 de junho de 2020

 

No embalo do revival das conquistas inesquecíveis do futebol brasileiro, eu relembro uma história com João Saldanha, no início da década de 80 quando, comendo uma maravilhosa galinhada feita pelo Carlos Herculano Lopes, ele nos contou a história da titularidade na Seleção Canarinho do Tostão. Abaixo eu completo o Podcast Mondolivro da Rádio BandNews Bhz, com uma crônica. Ouçam e leiam.

 

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O Gol de Letras do Tostão

 

João Saldanha foi um dos primeiros convidados da história do “Sempre Um Papo”. Lotou o “Cabaré Mineiro”, em 1987, para lançar o seu “Meus Amigos”. Até falecer, em 1990, esteve várias vezes em BH. Das muitas boas histórias que este bom amigo me deixou, a mais divertida me foi contada quando o jornalista Carlos Herculano decidiu fazer uma galinhada para ele, no meu apartamento.

 

Mas uma galinha exige… uma galinha! Era um domingo, e fomos comprar a galinha no Mercado Central. Já muito combalido pela enfisema, não conseguiu andar e parou na porta de entrada e ali ficou, encostado, esperando o Carlinhos comprar as galinhas. Foi quando eu presenciei o amor que o público tinha por ele. Era um amor natural, ele era uma presença diária na vida das pessoas, na televisão, com o bordão “meus amigos”… as pessoas passavam por ele e o cumprimentavam normalmente – como se aquele João parasse ali todos os dias. E de certa forma, estava.

 

Depois, fomos almoçar, em casa. Nos divertimos, ele contou muitas histórias, a maioria mentira, como sempre. O Carlinhos fotografou tudo. Dias depois, me manda uma foto, com o João mordendo uma coxinha de galinha. E com a seguinte legenda: quem disse que comunista não come criancinha?

 

Fizemos uma longa entrevista, quase quatro horas. Entre as histórias, uma pérola, sobre a convocação, em 1969, do Dr. Eduardo, o Tostão, para a Seleção Brasileira, quando ainda era técnico.

 

Como todos sabem, em 24 de agosto daquele ano, o zagueiro Ditão, do Corinthians, chutou a bola no rosto do meio de campo do Cruzeiro, provocando um descolamento de retina. Em outubro, ele submeteu-se a uma cirurgia, nos Estados Unidos. Mesmo com recuperação improvável, João Saldanha o convocou para a Seleção, apenas alguns meses depois. Como a imprensa não parava de perguntar sobre o assunto, o técnico decide convocar uma coletiva, no meio de campo. Pegou um cavalete de madeira, e chamou o Tostão.

 

 – Sobe no cavalete, ordenou. Tostão subiu.

 

– Pula, mandou. Tostão pulou.

 

Virou para os jornalistas e perguntou:

 

 – Alguém viu o olho ele aí na grama? Gritou, apontando para o solo. Silêncio geral.

 

– Não? Então está resolvido. Vai jogar, Tostão.

 

Um dia, perguntei ao Dr. Eduardo se isso era verdade. Eloquente, como sempre, ele só me olhou, de soslaio, deu uma risada mínima, e mudou de assunto.

 

Em 1997, escreveu o livro “Lembranças, Opiniões e Reflexões sobre Futebol”, editado pela DBA, de São Paulo. Tive uma pequena participação no tema, ao sugerir o livro e apresentar os diretores da editora ao autor.

 

Culto, inteligente, leitor ávido, Tostão encerrou a sua carreira de jogador precocemente, aos 26 anos. Formou-se em Medicina, foi professor, colunista, comentarista e agora, escritor. A Companhia das Letras acaba de mandar para as livrarias a autobiografia “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos: Um Olhar Sobre o Futebol”. Este é um livro esperado por seus milhões de admiradores, fãs e leitores. Ele, que deu tantas alegrias, a tantos, faz agora o tento que tanto sonhou: o gol de letras.