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Coisa de quem lê muito jornal, por Fabiana De Franceschi

25 de dezembro de 2019

 

Natal na praia. Finalmente sem protocolos. A atual  cunhada  queimou na largada. Passou mal com a pinga batizada da  caipirinha e ficou sem condições de preparar a ceia que anunciou. Acabou pra sogra improvisar enquanto  aproveitava a deixa pra falar mal da nova integrante da família e da ex, que virou Youtuber. O genro,  que só ficava no canto fumando, resolveu comprar uns  camarões, dos pequenos e não dos grandes, e meia dúzia  de cervejas, mesmo quentes, contando vantagem do bônus.  Logo apresentou a nota do supermercado para a divisão, lembrando da gasolina que ficou pendurada.  A filha  não gostou do vinho que ganhou da firma e de pileque, dançou até o chão com a sobrinho o funk que não parou de tocar o dia todo, na caixinha que ele portava na cintura, quando não estava de  conversa no celular. A vovó com Alzheimer se assustava  a cada batidão e com  o  barulho, perguntava: é o avião, é o avião??? Todos  riam. Graças  a sua aposentadoria,  a viagem se realizou. Quando o jantar  ficou pronto, o pai não queria desligar a tv por causa dos melhores gols do ano. As crianças avançaram na árvore de natal, mal agradeceram os presentes, ou melhor, ao fazerem um vídeo para a outra avó que não foi convidada para viagem, reclamaram. Não queriam o quebra cabeça, prefeririam o lego do Star Wars. O tio não acertou no biquíni  para esposa, nem no tamanho e nem na cor. Não se importa com os  dez quilos a mais que ela insiste em contar que ganhou por causa da tiroide. Ao redor da mesa, uns lembravam dos que morreram ou estavam doentes e outros dos que viraram gay ou uber. Aqui, de verdade, todos  se importam com todos. A seu modo, ninguém  toma partido de ninguém mas também ninguém é isentão. Um agregado usou esse termo pra puxar papo de política e foi ignorado. Acho que não  entenderam, “coisa de quem lê muito jornal”. Eles estão  de olho em quem ganhou mais ou conseguiu comprar  um carro novo. E juntos torcem para que a empresa não quebre, o emprego seja certo. O Brasil pra eles vai bem se todo mundo se mantiver assim, unido.

 

Fabiana de Franceschi, 45 anos, mãe de Luca e do Felipe, paulistana da gema, curiosa por profissão, escritora e roteirista nas horas vagas

 

Do Editor: é a estreia de Fabiana De Franceschi, que soube captar o que fica por trás do ar do cotidiano. Bem-vinda! A.