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Contra a banalidade do luto, em memória de Sérgio Sant’anna

10 de maio de 2020

Sergio Sant'anna

Morreu Sérgio Sant’anna, uma referência para nós, escritores no quesito qualidade e modernidade. A gente sabia que da lavra do Serginho sempre sairia coisa surpreendente, inimitável e, sobremaneira, de alto conteúdo. Foi assim desde “O Sobrevivente”, lançado em BH, da fonte do Suplemento Literário de Minas Gerais, com Murilo Rubião à frente. Dali saiu, com Humberto Werneck, Silviano Santiago e outros, a chamada “Geração Suplemento”. 

Por outro lado, temos que combater agora é a tal banalidade dos lutos. Cada um tem a sua história e o seu lugar na vida e memória das pessoas e da história de um País. Temos que reverenciar a trajetória de cada um, com o luto reservado à sua devida proporção. Sérgio Sant’anna está na primeira prateleira - aquela lá do alto.

Da entrevista de Regina Duarte, atual Secretária Especial de Cultura (ex-Ministério da Cultura), entre tantas barbaridades, nunca vou me esquecer nunca da frase “e eu vou transformar a Secretaria em um obituário?”. A resposta, com o corpo lançado para trás, junto com o movimento de braço, é a síntese do cinismo que ratifica os genocídios. É a tal banalidade do mal, que Hannah Arendt aprofundou. 

Cada ser humano, por menor que seja, merece ser lembrado devidamente depois da morte. Esta é uma regra da vida, praticada pelos agrupamentos mais primitivos. Portanto, sim, em tempos de pandemia, é hora de se fazer obituários, panegíricos, homenagens. Temos que homenagear cada um que morrer, temos que ser solidários com os doentes, amistosos com os contrários. Até para os insanos tem que sobrar espaço, se for o caso. Afinal, estamos falando de morte, de perdas e do sofrimento de quem fica. 

Voltando ao Sérgio, foi um escritor que inspirou muitos por seu método, por sua integridade enquanto profissional das letras. Sem dar margens às concessões, tratou de viver toda uma vida colado à tradição, à verdadeira tradição do bem escrever, do cuidado com o tema e o texto, sem se deixar esvaziar. Me lembro muito de outro, da mesma estirpe, Jaime Prado Gouvêa, contando como eles faziam: queriam o texto de um mestre por osmose - quando gostavam de um trecho de Hemingway, Dostoiévisky, Górki, copiavam. Sim, copiavam, à caneta ou lápis, todo o trecho. Ou todo o livro, não importa. O que valia é isso: o esmero, o trato sensível e inimitável do Mestre ali à sua frente, em palavras até certo ponto inatingíveis. Por isso a humildade da cópia. 

Porque sim - grandeza tem a ver humildade e trabalho, muito trabalho. Lições que Sérgio Sant’anna nos deixou, impressas. Estão aí, físicas: é só ler os seus muitos livros.