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Crime e reparação nas artes visuais brasileiras

5 de dezembro de 2018

De um lado, Laéssio Rodrigues de Oliveira, o ladrão de livros.

De outro, o Itaú Cultural, instituição que está fazendo de tudo para conseguir identificar e devolver obras raras que, por ventura, estejam em seu acervo.

De um lado, o cinismo elevado ao máxima potência, na forma de crime; de outro, a ética e a responsabilidade no trato com o bem cultural.

Ouçam o comentário de Afonso Borges na Rádio BandNewsBH, no Mondolivro. Só teclar AQUI.

O #MONDOLIVROINDICA de hoje, “Ladrões de Livros”, de Anders Rydell (Ed. Crítica) e “Os Homens que Salvavam Livros – A Luta para proteger os tesouros judeus das mãos dos nazistas” (Ed. Vestígio / Autêntica).

 

Abaixo, as matérias da Folha de SP que falam do assunto.

Entrei na faculdade só para roubar melhor’, diz ladrão da Biblioteca Nacional

Laéssio Rodrigues de Oliveira cursou biblioteconomia e calcula ter furtado 60 mil itens

Ivan Finotti

RIO DE JANEIRO

Laéssio Rodrigues de Oliveira é um ladrão com formação universitária. “Entrei na faculdade de biblioteconomia para saber como me portar no meio dos bibliotecários, apenas para roubar melhor”, conta ele, que cursou três anos na Fesp, na Vila Buarque, em São Paulo. “Faltou um para me formar.”

Furtando em todo o Brasil há mais de duas décadas, Oliveira estima já ter subtraído 60 mil itens das diversas instituições que visitou, uma expressiva maioria deles composta por revistas. “Só roubo revistas do século 19 e até 1960”, explica. Quanto a fotografias, foram umas 10 mil. “Duas mil do Itamaraty, mil da Biblioteca Nacional e umas 500 do MIS em São Paulo”, contabiliza.

Do Museu Nacional, que pegou fogo há três meses, ele diz ter furtado 3.000 gravuras, algumas revistas e 28 livros. “Salvei essas peças, não é mesmo? Ou hoje seriam cinzas”, diverte-se o homem de 45 anos.

Oliveira já roubou de todo jeito: “No começo, era tão fácil que eu chegava com duas malas enormes, vazias, dizendo que eu estava a caminho da rodoviária. Os funcionários não desconfiavam nos anos 1990. Saía com as malas destrambelhadas de tão cheias”, gargalha.

Depois, passou a entrar com mochilas, enrolava gravuras nas pernas, escondia nos banheiros, jogava pela janela etc. “Roubei umas mil revistas históricas da ECA-USP jogando pela janela da biblioteca.”

Após ser objeto do documentário “Cartas para um Ladrão de Livros”, de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, que estreou no início deste ano, Laéssio agora se prepara para voo mais alto. Vai virar filme de ficção, com direção de Mauro Lima, de “Meu Nome Não É Johnny”.

“Ele é um criminoso, então vai ser um filme de anti-herói, mas é uma história eletrizante, na qual o espectador acaba torcendo por ele. Como tantos filmes de trapaceiros e vigaristas”, afirma Lima.

A obra, que deve chamar “Ladrão de Livros”, está no primeiro tratamento de roteiro e, se tudo andar como deve, será filmada em 2019 e estreará em 2020. O filme e o documentário têm produção da Boutique Filmes, responsável pela série “3%”, da Netflix.

Oliveira, que já esteve cinco vezes na prisão, atualmente vive em liberdade. Apesar de ter meia dúzia de processos correndo contra ele.

Não sente nenhum arrependimento e, pior, com o passar do tempo deixou de sentir excitação com os roubos. “Acabou a adrenalina, o savoir-faire”, diz, pela primeira vez visivelmente triste na entrevista.

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Itaú Cultural devolve mais quatro obras que haviam sido roubadas da Biblioteca Nacional

Os trabalhos foram furtados em 2004 e estavam na coleção Brasilianas da instituição

Ivan Finotti

RIO DE JANEIRO

O Instituto Itaú Cultural devolveu nesta segunda (3) mais quatro obras raras que haviam sido furtadas da Biblioteca Nacional em 2004 e que estavam em sua coleção Brasilianas na avenida Paulista.

As peças são a litografia “Rio de Janeiro Pitoresco” (1842-1845), de Buvelot e Moreau, e três desenhos que retratam a Amazônia, feitos entre 1865 e 1868, por Keller-Leuzinger.

As quatro obras haviam sido vendidas ao Itaú Cultural pelo colecionador Ruy Souza e Silva, que ajudou a formar a coleção e é ex-marido de Neca Setubal, uma das herdeiras do banco.

Souza e Silva também havia vendido as oito gravuras do alemão Emil Bauch que estavam expostas no Itaú Cultural até março deste ano.

Após a Folha publicar reportagem sobre o assunto, as peças foram periciadas pela Biblioteca Nacional e devolvidas à instituição carioca.

Na ocasião, Souza e Silva afirmou ter comprado os trabalhos da casa de obras raras londrina Maggs Bros., e de ter apresentado os recibos ao instituto.

Contatado novamente por email, o colecionador disse agora: “Terei oportunidade de esclarecer toda e qualquer dúvida das autoridades referente à origem dessas quatro obras”.

“Antecipo, contudo, que as Keller-Leuzinger foram compradas em leilão no Rio, tendo a Biblioteca Nacional recebido tempestivamente o referido catálogo para fazer as verificações de praxe e a gravura do Buvelot foi adquirida de um marchand de Petrópolis, com informações que se mostram verdadeiras sobre o vínculo dela com o acervo pessoal de membros da Família Imperial.”

O caso foi levantado em março pelo próprio ladrão das gravuras, Laéssio Rodrigues de Oliveira, que afirmou em carta à Folha ter roubado centenas de obras da Biblioteca Nacional e de outros museus e de tê-las repassado a colecionadores como Souza e Silva.

Na entrega realizada nesta segunda, o delegado Paulo Teles afirmou que outras instituições prejudicadas devem procurar o Itaú e enviar listas de peças subtraídas. Citou a Biblioteca Mário de Andrade, o Museu Nacional, o Itamaraty, o Jardim Botânico, os arquivos Nacional e da Cidade do Rio, o Museu Histórico Nacional e o Instituto Fiocruz.

“É fundamental que essas instituições, entre outras, façam o mesmo trabalho que a Biblioteca Nacional. Laéssio Rodrigues está colaborando com a gente dizendo onde roubou e onde viu as obras que roubou no passado expostas hoje”, disse o delegado federal Paulo Teles.

É possível que as obras roubadas por Laéssio tenham ido parar em coleções particulares ou mesmo em outras instituições públicas e privadas.

Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, disse que as 2.800 obras da coleção Brasilianas estão à disposição. “Nós vamos procurar cada instituição listada pelo delegado e oferecer as obras que temos e que batem com roubos de cada uma. Se não tiverem especialistas em seu corpo técnico, podemos fazer uma parceria”, afirmou Saron.

Ele e a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, estão elaborando, em conjunto, um manual de conduta para a circulação de obras de arte. “Criaremos isso a partir de protocolos internacionais”, disse Severo.

A devolução das quatro obras nesta segunda é resultado do trabalho de análise comandado pelo perito Joaquim Marçal.

A partir do cruzamento de centenas de obras furtadas em 2004 e 2005 da biblioteca com as do acervo do Itaú Cultural, o instituto enviou três lotes com 102 itens para o Rio.

A maioria do material teve resultado inconclusivo e 32 foram declarados como definitivamente não pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional.