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E as 33 obras do acervo da Infraero? Onde estão?

14 de abril de 2018

 

 

Em 1985, um ano após a inauguração do Aeroporto de Confins, o Ministério da Aeronáutica comprou e doou para a Infraero uma coleção de 33 artistas plásticos contemporâneos mineiros. É o “Acervo Artístico” que foi exposto algumas vezes nos aeroportos e, em seguida, passou a decorar as paredes das repartições públicas da Estatal. É uma coleção inestimável de obras de Amílcar de Castro, Mário Silésio, Sânzio Menezes, Inimá de Paula, Chanina, Chico Ferreira, Roberto Vieira, Noêmia Motta, Lúcia Marques, Marlene Trindade, Paulo Laender, Fernando Velloso, Nello Nuno, Carlos Bracher, Marco Túlio Resende, Jarbas Juarez Antunes, Lotus Lobo, Celso Renato de Lima, Ricardo Carvão Levy, Bruno Giannetti, Maurino Araújo, Mário Zavagli, Anna Amélia Lopes, Marcos Coelho Benjamim, Carlos Wolney Soares, Sara Ávila, Marina Nazareth, Álvaro Apocalipse e Maria Helena Andrés. É praticamente o acervo básico de um museu de arte moderna que, certamente, nenhum instituição mineira os têm, reunidos. Alguns deles, como a escultura de Paulo Laender e os painéis de Álvaro Apocalipse, Maria Helena Andrés podem ser vistos no saguão do aeroporto de Confins.

A Infraero tem tradição na aquisição e guarda de obras de arte, que estão espalhadas por aeroportos de todo o País. Congonhas (SP) exibe, junto à escada que leva do subsolo ao térreo, uma obra da dupla Ernani do Val Penteado e Raymond A. Jehlen, os arquitetos responsáveis pela construção do aeroporto. Outra preciosidade no aeroporto paulista, aberta apenas para visitas agendadas, é o painel pintado por Di Cavalcanti e Clóvis Graciano, no Pavilhão das Autoridades. No Rio de Janeiro, os usuários do terminal podem ver na calçada o busto de Santos Dumont feito por Victor Brecheret. Salvador possui um mosaico do artista gaúcho Glauco Rodrigues com lugares, personagens e manifestações culturais da Bahia. Foi a última obra do artista. Um painel feito com mármores e granitos embeleza o aeroporto de Campina Grande (PB), concebido pelo escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, o trabalho foi realizado pelo seu genro, Guilherme da Fonte.  O aeroporto do Recife (PE) exibe um painel na entrada de embarque de Francisco Brennand  O escultor Abelardo da Hora aparece com uma estátua do sociólogo Gilberto Freyre. João Câmara é o autor do painel na área de check-in. E por aí vai.

No caso de Minas Gerais, grande parte das obras estavam nas paredes do  prédio da Infraero, situado na Rua Líder, 197, ao lado do aeroporto da Pampulha. Acontece que o prédio foi desativado, os funcionários demitidos e, no momento, encontra-se abandonado – com a escultura do Amílcar na frente. Entre outubro e dezembro de 2017, um estranho pedido rodou nos computadores: as obras deveriam vir para Brasília, com destino incerto. Correu o boato que elas seriam leiloadas. A tarefa foi cumprida pela Transportadora Generoso que, apesar do nome, celebrou a empreitada, entregando a preciosa carga no Distrito Federal, em destino incerto.

Aí vem as perguntas: onde elas foram depositadas? Com qual finalidade? O que será delas? Qual seu estado de conservação? Se é da Infraero, é patrimônio público. O IEPHA foi consultado? Ou o IBRAM? Ou, no mínimo, a Secretaria de Estado da Cultura? Se vão ser leiloadas, qual o procedimento jurídico correto? Por que tanto segredo? Em uma conta tosca, estamos falando de alguns milhões de reais. Por que a sua guarda não foi oferecida a um Museu de Belo Horizonte? Afinal, com qual reserva legal tal magnífico acervo foi transferido para Brasília? Ele pertence a Minas Gerais! E outra: qual a situação jurídica das obras que ficaram em Confins? São de propriedade da nova Concessionária, a BH Airport? E por que o acervo foi dividido?

Perguntas que serão feitas, certamente, pelo Ministério Público de Minas Gerais e o MPF, em breve. E tomara que as respostas sejam as melhores possíveis, para que este acervo retorne, de preferência, sob a tutela do IPHAN.

 

Este texto também foi publicado no jornal “O Globo”. Para ler, só teclar AQUI.