fbpx

Hugo Ferreira, a “Geração do Quarto” e o Papel da Cultura

14 de março de 2019

 

– O massacre terminou em suicídio.

 

Esta frase pode encerrar qualquer texto sobre o acontecimento na escola estadual professor Raul Brasil, em Suzano, São Paulo. Mas neste quadrado ela entra no início. O auto-extermínio já é a segunda maior causa de mortes no mundo em jovens entre 18 e 29 anos. Os mortos e feridos na tragédia paulista parecem ser coadjuvantes de um filme de ação norte-americano, onde o ponto alto é o final, mais trágico ainda.

 

O neuropsicólogo Hugo Monteiro Ferreira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, criou, em 2015, o termo “geração do quarto”. A denominação foi dada a jovens e adolescentes que possuem uma relação intensa com a internet, são solitários e, ao mesmo tempo, enfrentam dificuldades na família. Hugo é doutor em Educação e escreveu os livros “Benedito” e “Emílio ou Quando se Nasce com um Vulcão ao Lado”, indicado para o Jabuti 2014 na categoria Juvenil.

 

O termo “quarto” determina também o ambiente selado destes jovens de aparência doméstica e reclusa que, no seu íntimo, são capazes de planejar e executar os mais terríveis acontecimentos. Os dois adolescentes viviam mergulhados na Deep Web, eram especializados em jogos de guerra, com armas e mortes. E se prepararam para o dia 14 de março. Vestiram fantasias – mais que isso, incorporaram os personagens. Como nos jogos, era matar ou morrer. Ou matar e morrer, como foi o caso, na vida real.

 

Mas seriam os jogos de games os culpados? Hugo pensa que não. Segundo ele, “há uma relação direta e indireta no que diz respeito a violência. Existem  pesquisas nas áreas de psicologia, psiquiatria e neurociência que apontam interferência na formação, tanto emocional, mental ou cerebral que tem repercussões comportamentais. Crianças e adolescentes – continua –  que utilizam mais de 4 horas da sua rotina diária para experimentar jogos virtuais costumam substituir os seres humanos ou mesmo os animais domésticos pelo computador”. Ainda assim, ele relativiza o papel do game: “o problema é como o jogo é vivenciado. De maneira geral, independente disso, eles são solitários, tem problemas de diálogo com a família e se relacionam pouco com o mundo real”.

 

Pedi ao Hugo uma sinopse do seu livro, a ser lançado no segundo semestre. Aqui vai:

 

“O livro “A Geração do Quarto: Quando Crianças e Adolescentes Nos Ensinam a Amar” é o resultado de uma pesquisa de campo, feita em 5 capitais brasileiras, sobre a geração que nasce no final do Século XX e início do Século XXI e que apresenta adoecimento emocional e mental. No mundo, o suicídio é a segunda causa morta entre pessoas entre 15 e 29 anos de idade; o fenômeno da automutilação sem intenção suicida é um dos maiores problemas não declarados das redes de ensino, tanto pública quanto privada; a depressão e a síndrome do pânico, além do uso abusivo de álcool, a gravidez na adolescência e a prática sexual sem uso de preservativo são elementos que estão presentes no cotidiano de meninos e meninas violentados/as e violentos. O livro tenta mostrar que não é mais possível fechar os olhos e silenciar diante do pedido de ajuda desse grupo social. O livro crítica a ideia de que estamos diante de uma geração fracassada e termina com uma proposição: mais do que categoriza meninos e meninas, devemos ouvi-los/as, eles/elas tem muito a dizer.”

 

Entre os integrantes da chamada “Geração do Quarto”, os violentos são apenas a ponta do iceberg. A grande maioria destes jovens são deprimidos, calados, reclusos, inadaptados. A grande maioria destes jovens, ao invés de entrar em escolas atirando, se suicida. Ou vão para o crime. Eles são a estatística absurda deste país, onde mais de 200 mil desta faixa etária são exterminados por ano. São literalmente assassinados. Ou estão nas ruas, assaltando, entrando e saindo das “Fundação Casa” espalhadas pelo País. São o produto da ausência de políticas públicas na área de Educação, Saúde e, principalmente, Cultura.

 

Por que a Cultura? Por que os dois jovens escolheram para entrar na escola roupas de personagens? Por que eles escolheram estas vestimentas para o cometer assassinatos e o gran finale, o suicídio? Porque só a Cultura acolhe, carrega em sua dimensão a palavra que lhes falta: o amor – o amor contido no livro, no espetáculo de teatro, na apresentação musical, na dança, nas artes plásticas. Na arte, na arte e só na arte.

 

Por isso, Hugo Monteiro Ferreira cunhou a expressão “Geração do Quarto”. É um alerta. Um pedido de socorro. Quem vai atender este telefonema? A Cultura, é claro