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Imprensa brasileira sob ameaça

20 de janeiro de 2019

Li todos os jornais, depois fui aos portais. Nada. Corri os blogs parceiros, os especializados. Nada. Mas o meu WhatsApp não parava de apitar mensagens a respeito. Fiquei pensativo, já havia me manifestado a respeito, dias atrás. Assessor de Flávio movimentou 7 milhões, Bolsonaro vai viajar para Davos, Mourão assume, CR7 alicia Marcelo para o Juventus, Luan vai se trocado pelo Romero – não existe nada mais importante na pauta de acontecimentos no Brasil que a ameaça feita por Joly Júnior ao Juca Kfouri. Nada.

 

Um grupo seleto de jornalistas brasileiros que tem a coragem de emitir opinião está sendo diariamente ameaçado, todos os dias, há anos. Nada é feito de objetivo, de real. Esta conversa mole de serem de “esquerda” é falsa. São comentaristas corajosos, que tem por característica a isenção. São jornalistas que cumprem a missão da casa: perguntar, denunciar, procurar a verdade dos fatos. E mais: fazem isso não é de hoje – fazem isso desde que colocaram a primeira letra em suas colunas em papel-jornal. Mas hoje viraram o arroz-de-festa das ofensas, ameaças, agressões, xingamentos. E nada é feito de objetivo, de real.

 

As ofensas e ameaças dirigidas a Juca Kfouri foram além: elas foram  a Stuart Angel. Todas as fontes confiáveis revelaram o destino do cadáver torturado do filho de Zuzu Angel: jogado, como muitos, em alto mar, de helicóptero. E este infeliz tocou no ponto que sabia ser a ferida aberta da Ditadura, afinal, estes assassinos nunca foram julgados, nunca foram sequer identificados pela Justiça. Apesar da lei ser clara: são crimes inafiançáveis, crimes contra a humanidade. Serei de esquerda, por reclamar a posse do corpo de uma pessoa que foi barbaramente torturada, até morrer? Ou preciso relatar os detalhes horrorosos da sua morte?

 

Não. Não existe fato mais relevante na política brasileira que as ameaças deste covarde Joly Júnior a Juca Kfouri. Além das ameaças à vida do jornalista, fato até certo ponto comum na sua vida, ele desceu aos porões do pior que os militares promoveram, durante a Ditadura. Sem falar em ideologia, cadáveres insepultos, tanto à esquerda quanto à direita, são chagas abertsa da história. Em todos os países do mundo, em todos os tempos.

 

Enquanto escrevo esta, a imprensa perde mais uma: três novas mensagens chegam ao meu WhatsApp com a nota oficial da Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas. Ela diz tudo – ou quase tudo. É hora de estampar na capa dos jornais e portais: Imprensa sob ameaça. E reproduziria, na íntegra, a nota abaixo:

 

“A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) expressa seu apoio ao jornalista Juca Kfouri e seu repúdio às inaceitáveis agressões praticadas por meio de mensagens em rede social por José Emílio Joly Júnior. Em sua coluna na internet e em jornal, Juca Kfouri aborda principalmente temas esportivos, mas com frequência trata também de temas políticos, inclusive para dar toda a dimensão das questões que envolvem o esporte brasileiro e mundial.

 

Críticas legítimas do jornalista ao governo Bolsonaro e ao grupo que o cerca provocaram, por parte de Joly Júnior, uma saraivada de mensagens com agressões e ameaças – que ultrapassaram o limite do debate democrático e entraram no terreno criminal.

 

Ao atacar Juca Kfouri, Joly Júnior usou termos como: “Lembre-se que a Ditadura está no poder e os porões serão reabertos para ‘extinguir’ lixos como você, Juca. Cuidado!”; “Como ex-militar, eu adoraria uma missão para executar imbecis iguais a vocês do UOL e outros lixos”; “Acho que o seu nome já está na lista dos famosos helicópteros dos tempos áureos da Ditadura, onde sobrevoavam por mares distantes! Atenção senhores passageiros para voo panorâmico em alto mar, tomem seus assentos, boa viagem e até nunca mais!!!!”; “Juca.nalha. Sou ex-militar (Pelopes – Pelotão de Operações Especiais), e consigo achar qualquer animal, nem que seja no inferno”.

 

Frente ao teor criminoso das mensagens, Juca Kfouri corretamente acionou o Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos do Ministério Público de São Paulo, e o agressor terá de responder judicialmente por seus atos. A Fenaj apoia totalmente o jornalista e pretende se somar à iniciativa como parte diretamente interessada, pois há uma escalada de agressões e ameaças a jornalistas em rede social em todo o Brasil, e é preciso enfrentá-la para preservar o livre exercício do jornalismo e a própria liberdade de imprensa.

 

As mensagens de Joly Júnior, por seu teor, suscitam ainda outra questão: como se sabe, os crimes de tortura e morte praticadas por agentes da ditadura militar de 1964 permanecem até hoje não apurados, e portanto impunes, e são crimes imprescritíveis, cuja impunidade prossegue como uma chaga aberta. Nos somamos à demanda do jornalista Juca Kfouri para que a Justiça exija de Joly Júnior que explique o que sabe do uso de helicópteros para assassinar opositores e desaparecer com seus corpos durante o regime militar, como forma de avançar no conhecimento público desta página obscura de nossa história.

 

Diretoria da FENAJ”

 

E aqui, a nota no Blog do Juca: http://bit.ly/2FK7LGW

 

Aqui, o relato da morte de Stuart Angel:  http://bit.ly/2FJS3vv