Meu pai voltou, ao contrário de outros tantos

15 de junho de 2018

Era dezembro de 1968, eu tinha 5 anos e perguntei:

– Ué, pai, você vai viajar com eles?

Os dois agentes tinham chegado pouco antes lá em casa, pela manhã. Um terceiro ficou embaixo, esperando. Eram simpáticos, conversaram comigo, mas estranhei quando meu pai foi para o quarto se arrumar e voltou com uma sacola de roupas. Ele me tranquilizou:

– Vou, mas papai vai voltar logo.

Levou quase três meses para retornar.

Nesse período, ele passou por três prisões. Levado para “prestar esclarecimentos”, inicialmente esteve detido no Sops (Seção de Ordem Política e Social), uma delegacia da PF instalada na Praça XV. Em seguida, foi para o Regimento de Cavalaria Caetano de Faria, da PM. E, por fim, acabou no Quartel do Exército da Praça da Harmonia.

As lembranças surgem por causa da publicação recente no GLOBO de uma foto de meu pai no Regimento, junto com o poeta Gerardo Mello Mourão, o jornalista Osvaldo Peralva, o advogado Tanus Jorge Bastani, o poeta e psicanalista Helio Pellegrino e o então deputado João Herculino, ao lado de um policial.

Na imagem, meu pai faz um gesto obsceno destinado ao policial que fotografou o grupo. Um gesto irreverente e ao mesmo tempo corajoso de desafio ao soldado e à própria ditadura – se fosse percebido poderia ter tido sérias consequências.

No mesmo dia da prisão, logo após o AI-5, minha mãe, preocupada, foi ao Sops saber o que tinha acontecido. Junto com ela foi meu tio Zé Antônio. Os dois levaram escova, pasta de dente e mais roupas para ele. Também acabaram encarcerados, sabe-se lá por quê.

Assim que viu a mulher e o irmão serem presos, meu pai explicou para o delegado Antônio da Costa Sena que sua filha – minha irmã Elisa Ventura, de 4 anos – estava com coqueluche, tendo acessos de tosse.

– Isso é problema seu – foi a resposta.

Eu perguntava muito à minha tia:

– Meus pais não vão voltar?

Cerca de um mês depois, minha mãe e meu tio foram soltos. Meu pai tinha sido transferido para o Regimento Caetano de Faria e nós fomos enfim autorizados a vê-lo uma vez por semana.

O Regimento era comandado pelo coronel Quaresma. Os presos acordavam com o toque dos soldados, tomavam o café e faziam exercícios físicos. Tinham direito a 15 minutos de banho de sol, que depois pôde ser usado para jogar basquete. Um dia, meu pai e Helio Pellegrino decidiram fazer uma reinvindicação ao diretor:

– Coronel, o Ziraldo está no Dops e nós precisamos dele aqui para reforçar o nosso time.

Era um pedido insólito, mas eles se empenharam tanto que foram atendidos e, no dia seguinte, Ziraldo era transferido para lá.

Nas nossas visitas à prisão, meu pai tinha medo de que ficássemos traumatizados. Dizia para minha irmã, tentando mostrar o lado bom:

– Elisa, imagina. Isso aqui é ótimo! Dá até pra jogar basquete!

Só que, como ele veio a descobrir muitos anos depois, isso teve efeito oposto: na cabecinha dela o pai achava tão boa a prisão que tinha escolhido permanecer lá em vez de ficar em casa. Ela pensava: “Se está ótimo lá, ele não vai mais querer voltar.”

Meu pai e Helio dividiam a mesma cela. Passavam os dias conversando sobre o país, a política, a literatura, a prisão. “Foi um privilégio tê-lo como companheiro de cadeia. Todo mundo pagava uma fortuna para fazer análise com ele, e eu tive de graça”, conta meu pai, que mesmo nas circunstâncias mais adversas não perde o bom humor. De vez em quando um ajudava o outro a subir até uma pequena janela gradeada no alto, de onde podiam ver o sol.

Um dia, um tenente interrompeu a pelada e disse ao grupo de presos:

– Agora é nossa hora de jogar.

O mineiro Helio tentou argumentar:

– Mas tenente, nós só temos 15 minutos por dia!

O militar reclamou que tinha sido desacatado, e Helio e meu pai foram transferidos para o Quartel do Exército, como punição. Ficaram isolados, em celas dispostas lado a lado. Meu pai tinha escutado falar quando criança que se você botasse um copo na boca e encostasse na parede ele funcionaria como uma espécie de microfone: a pessoa do outro lado ouviria o que você dissesse. Ele tentou, mas não deu certo. Todo mundo ouvia seus gritos, menos Helio, e os guardas vinham saber o que estava acontecendo.

Ainda no Regimento Caetano de Farias, quem visitava Helio todo dia – até no carnaval – era Nelson Rodrigues. Os dois eram grandes amigos, apesar das divergências ideológicas. Nelson apoiava o regime militar, enquanto Helio era de esquerda – foi, por exemplo, orador na Passeata dos Cem Mil. Só que Nelson fez parecer maior o papel de Helio na vida pública do país. Com o exagero caricatural que lhe era habitual, costumava ironizar em suas crônicas o engajamento político do amigo. Dizia que “o verbo de Helio movia montanhas”, que ele era o homem-comício. Os militares acreditaram e prenderam o mineiro. O dramaturgo sentiu-se tão culpado que fez de tudo para libertá-lo.

Nas primeiras vezes em que Nelson entrava na cela, meu pai lhe virava as costas alegando que não queria conversa com um reacionário que elogiava a ditadura e tinha amigos generais. “Não quero falar com esse cara”, justificava. Helio dizia-lhe que era ridículo ficar de costas estando todos na mesma cela. Explicava que o escritor era um “personagem de si mesmo”. Aos poucos, meu pai foi entendendo as contradições daquela figura genial, de quem mais tarde também se tornou amigo.

Nelson continuou visitando Helio depois que ele foi transferido, e intercedeu junto ao general Henrique de Assunção Cardoso, chefe do Estado Maior do I Exército, para libertá-lo. Como narra Ruy Castro em “O Anjo Pornográfico”, ele alegava: “Mas, general, o Helio é uma cotovia. É um homem com alma de passarinho! É meu amigo de infância! Como um homem desses pode ser um perigoso condutor das massas?”

Por fim, o general se convenceu e decidiu soltá-lo. Nelson, animado, foi levar a boa notícia ao psicanalista, que bateu o pé:

– Eu só saio com o Zuenir.

Nelson respondeu:

– Mas Helio, o Zuenir, essa doce figura, se ele sair daí será que não vai colocar uma bomba no quartel?

Nelson, claro, logo se convenceu. Faltava dobrar o general. Dias depois, o dramaturgo levou minha mãe e Maria Urbana, mulher de Helio, até Assunção Cardoso, para contar que o psicanalista só sairia com meu pai. Durante a conversa, minha mãe volta e meia cutucava Nelson e sussurrava: “Fala do Zuenir, fala do Zuenir!” Ele enfim falou: “Zuenir também é uma cotovia, general! É um passarinho sem céu! É também meu amigo de infância!”

O general não pareceu muito convencido, como escreve Castro:

“Doutor Nelson, estou disposto a acreditar que o doutor Helio Pellegrino seja o seu amigo de infância. Mas tenho informações de que o senhor conheceu Zuenir Ventura na prisão. Como pode ser seu amigo de infância?”

O autor de “Vestido de noiva” não esperava por esta. Maria Urbana salvou-o: “Ele está dizendo isso no sentido figurado, general. Quer dizer que é como se fosse amigo de infância.”

Assunção Cardoso quis saber se o dramaturgo se responsabilizava pelos dois, e, diante da concordância, eles deixaram a prisão em março de 1969.

Uma prisão a que meu pai foi submetido, sem culpa e sem provas, por simples suspeitas. O ambiente naquele período era de tanto terror e paranoia que, anos depois, ele consultou sua ficha no Dops e viu o tamanho do equívoco. Achavam que era a pessoa encarregada pelo Partido Comunista de controlar a imprensa, decidindo quem seria admitido ou demitido dos jornais. Logo ele, que não tinha militância política, nem era filiado a partido e muito menos combateu o regime pelas armas. Era professor universitário e jornalista, e participou de assembleias e passeatas, como tanta gente que queria a volta da democracia. Mas, numa ditadura, pensar diferente pode dar cadeia.

Apesar dos riscos por que passou, meu pai sempre recusou a vitimização. Não diz que o período no cárcere foi um horror – na época, logo após o AI-5, a tortura ainda não era comum -, mas também não suaviza. Havia uma tensão permanente no ar. Nas transferências de prisão, diziam apenas a ele: “Arruma seus pertences.” Não davam explicações e não se tinha ideia do que ia acontecer.

Felizmente pôde voltar para nós, ao contrário de tantos outros.

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