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Morre Dimenstein, um dos “indispensáveis”, de Brecht

29 de maio de 2020

 

1988, Biblioteca Pública de Minas Gerais, projeto “Sempre um Papo”. Lançamento do livro “A República dos Padrinhos – Chantagem e Corrupção em Brasília” que acusava, entre muitos, o então deputado federal e Ministro Aníbal Teixeira de peculato. Formou-se no Senado uma CPI, da qual Itamar Franco era um dos integrantes. Sem vacilar, passei um telegrama, convidando Aníbal e Itamar, então adversários, para compor a mesa de debates.  Na tarde do evento, Aníbal Teixeira fica sabendo que o senador Itamar Franco não poderia ir. E confirma presença. Seria só ele e o Dimenstein.

 

Eu, sinceramente, não acreditei muito na hipótese. Imaginem: acusador e acusado, um ao lado do outro. Mas foi o que aconteceu. A biblioteca não tinha  um teatro e sim uma ‘sala de multimeios” com cadeiras simples, espalhadas. Aluguei um praticável, que cabia só uma mesa com 3 lugares. Na hora do evento, casa LOTADA, convidei os dois para subir e começou um dos eventos mais tensos da minha vida. Mas nem tanto pelo embate entre os dois convidados. Por outro motivo…

 

Do palco, vi Claudio Noronha chegando no auditório lotado. Claudio tinha sido um militante da luta armada, sofrido muita tortura e, ultimamente, apresentava distúrbios de comportamento graves. A gente tinha sido avisado de duas coisas: ia ter meganha e doidos na plateia. Eu estava preparado. Ele chegou e ficou no fundo. E começou a levantar e sentar, passando as mãos na parte de trás da calça, como se tivesse uma arma. Sem vacilar, chamei um amigo jornalista para me substituir, na mediação da mesa, e fui lá.

 

Ao chegar, sentei atrás dele, vi o volume e comecei a conversar com ele, dizendo para ele ter calma, pedindo para ele ouvir o debate. Ele dizia: “vou matar ele, vou matar ele…” (dirigindo-se ao Aníbal Teixeira).  E assim fiquei, conversando, falando devagar… me lembro que em um momento eu abracei ele por trás e o fiz sentar. Estava agitadíssimo. E o meu grande temor era o que fazer quando terminasse o debate – que estava quentíssimo, com Anibal Teixeira desfolhando pilhas de documentos em sua defesa (anos depois, escreveu um livro sobre isso).

 

A minha sorte completa foi que a namorada do Claudio chegou, e ele quietou. E Gilberto, tranquilo, enfrentou a fúria do ex-ministro com serenidade e argumentos fortes. E cravou, no autógrafo ao meu livro”Ao amigo Afonso, que fez este livro ter o seu auge em Belo Horizonte”.  E terminou, profético:  “para pensar, na esperança de um País melhor”. Data: novembro de 1988.

 

Depois foram tantos os eventos, encontros, telefonemas, confidências, ao longo dos anos… tive a honra de lançar todos os seus livros. Ele me avisava que estava escrevendo, que em breve nós faríamos eventos… mais recentemente, fiz com um “Sempre um Papo” com ele e Mario Sergio Cortella, no Cine Theatro Brasil. Fiquem com esta boa lembrança.

 

Vai-se um jornalista incrível, combativo. Mas perdemos mais: um ser humano preocupado com o outro, com o bem do outro, permanentemente indignado com a corrupção, com a maldade. Vai-se um daqueles que Brecht chama de “indispensáveis”. Nos deixou muito. Vai fazer muita falta. Obrigado por seu tempo conosco, Gilberto Dimenstein.

 

A.

 

PS – Por cuidado, troquei o nome do personagem para Claudio Noronha.