fbpx

No coração de Dona Lucinha descansa a alma de Minas

9 de abril de 2019

Dona Lucinha

O coração de Dona Lucinha é do tamanho do mundo. O afeto, quando transborda, ultrapassa as fronteiras do acontecimento, do fato em si. Ela é dona de um cantinho, um restaurante pequeno, com seu nome, mas do tamanho da vida da gente. O carinho, quando é grande, vai além da amizade, é amor. Dona Lucinha dedicou sua vida aos amigos, amigas e a cozinha mineira. Hoje ela nos deixou. Carinhosa e bondosamente, nos deixou. Santo Antônio, em pessoa, foi abrir a porta do céu, feliz da vida que agora vai se empanturrar de boa comida, enquanto durar a eternidade. 

Dona Lucinha, nascida Maria Lucia Clementino Nunes, no Serro, terra de Oswaldo França Júnior. Professora, cozinheira, catequista, salgadeira, doceira, feirante, quitandeira, diretora escolar e vereadora. Mais que isso: fez da sua vida um cuidado perpétuo – para cada um, ou cada uma, sempre um olhar gentil, uma fala amena, amável e carinhosa. 

Mas Dona Lucinha, no fundo, queria ter sido médica. Teve 11 filhos, que lhe deram 23 netos (por enquanto).  Mas foi pela dedicação e amor à cozinha mineira que Dona Lucinha se notabilizou no Brasil e no mundo. Foi no restaurante Dona Lucinha que eu aprendi que a comida dita a cultura. Veja lá: do lado direito, a comida do tropeiro – a comida seca, feita para se carregar no lombo de burro, feita para durar dias e dias de caminhada pelo sertão. Do lado esquerdo, o do coração, a cozinha da fazenda, a comida molhada, com caldos e molhos, feitos no bom fogão de lenha, no calor das fazendas e casas do interior. 

Quando Oswaldo França Júnior, autor de "Jorge, um Brasileiro", morreu, ela criou o "Cantinho do França", um espaço dedicado ao escritor, ao amigo.  Este pequeno gesto tem um significado muito maior do que aparenta. É só uma mesa, com um banner com um texto lindo do Antonio Barreto e uma dúzia de livros sobre uma mesa. Mas no restaurante da Dona Lucinha cabe o todo o sentimento do mundo, parafraseando Drummond. 

Dona Lucinha nos deixou bondosamente. Foi devagar, avisando, nos tocando aos poucos, deixando que o alimento ditasse o tempo do fervor, a hora de desligar o fogão, tirar as panelas e servir. Dona Lucinha, muito obrigado, por seu tempo conosco, de coração. Não mando a senhora ir com Deus porque um anjo me contou que ele desceu à terra, pessoalmente, para levá-la, de braço dado. Amém.