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O legado do “Sempre um Papo” no Norte e o texto de Humberto Pereira

24 de abril de 2020

 

Na coluna de hoje, Afonso Borges exibe o depoimento da jornalista Andréa Zílio, sobre o legado que o projeto “Sempre um Papo” deixou, nos cinco anos que atuou em Rio Branco, no Acre, e em Porto Velho, Rondônia. Destaca também o artigo do jornalista Humberto Pereira, intitulado “Vem aí o Pós-Ódio”, onde vislumbra a chegada de um ser humano mais solidário, em breve.

 

E encerra com o #MondolivroIndica ressaltando “O Filho da Noite”, de Antonio Calloni.

 

Para ouvir o podcast Mondolivro, na Rádio BandNews Bhz, tecle nas plataformas abaixo:

 

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Depoimento de Andréa Zílio, de Rio Branco, no Acre.

 

 

 

Texto de Humberto Pereira, publicado na Folha de SP: 

 

Vem aí o pós-ódio

Em meio a tanto caos, luto e dor, surge um homem civilizado, mais solidário

A primeira vez que tive a impressão de que alguma coisa estava mudando para melhor foi em nosso recente Carnaval. O povo foi para a rua aos milhões, em números nunca vistos anteriormente. O fenômeno dos blocos já vinha aumentando há alguns anos, mas o salto de 2020 foi inesperado.

Era uma necessidade de alegria, de desabafo maior do que o habitual, ainda que por alguns dias. Não deu tempo —e agora não há clima— para se refletir sobre a dimensão inédita do Carnaval deste ano.

Voluntários recebem doações de alimentos e produtos de limpeza para distribuir a famílias que sobrevivem do recolhimento e da venda de recicláveis, atividade fortemente impactada pelo fechamento do comércio em Curitiba – Brunno Covello – 7.abr.20/Folhapress

Mas podemos admitir a hipótese (por que não?) de que ele tenha expressado o inconformismo com o massacre de meses, de anos de moralismo exacerbado, de ódio servido a domicílio pelas notícias falsas, intrigando pais com filhos, irmãos com irmãos, mulher com marido, amigo com amigo, o Brasil com outros países.

O massacre do ódio, como sabemos, se deu também nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Europa, no mundo inteiro.

Com a Covid-19, entramos numa era cheia de perguntas sem respostas. O que sabemos por ora é o que podemos enxergar a olho nu: que as modernas tecnologias só darão respostas eficazes em prazos de meses, ou até de anos; que as doutrinas econômicas estão batendo cabeça; que os políticos estão reagindo atrasados diante de um evento que jogou por terra seus sofisticados planejamentos e seus projetos pessoais.

Estamos vendo a olho nu que, em meio a tanto caos, luto e dor, o ódio insiste, tenta achar culpados entre seus demônios fictícios de sempre. Porém já percebeu (será?) que seus métodos de difamação e demonização são inúteis e descabidos neste momento.

O que importa é que estamos vendo com clareza um ser humano civilizado, solidário, emergindo no redemoinho da pandemia. Uma força descomunal está movendo santos, justos, doadores, misericordiosos, irmãos desconhecidos. De todo lado aparecem Florences Nightingale, irmãs Dulce, Catarinas de Sena, doutores Alberts Schweitzer.

De fora do Brasil nos chegam as estatísticas dos mais de cem médicos mortos na Itália. Do Reino Unido, a convocação de 250 mil voluntários que se tornaram espontaneamente 750 mil. Ainda da Inglaterra, há o caso dos dois imigrantes que assistiram o primeiro-ministro, Boris Johnson, em sua internação.

Aqui no Brasil, o SUS e as Santas Casas, tão carentes, vieram para o proscênio. As pessoas querem ajudar umas às outras. Nas favelas aparece gente se organizando, fazendo o que o Estado não terá condições de fazer. Multiplicam-se as doações de banqueiros e empresários —pondo a mão no próprio bolso, e não apenas nas isenções fiscais.

Há, concomitantemente, uma preocupação geral com comida no prato de todos. Não podemos nos esquecer de que, além das pestes medievais e das guerras, o outro flagelo recorrente na história da humanidade é a fome. Felizmente, neste quesito, o Brasil está melhor do que a maioria dos países.

Sim, o ódio não vai desaparecer. Ele continuará nos incomodando com seu hálito sulfídrico, seus arrotos patológicos. Neste momento mesmo está tentando nos arrastar para mais uma polarização desagregadora: remédio versus quarentena. Ridículo, não caiamos nessa.

O que se vê a olho nu e de coração aberto é que o ódio está perdendo o protagonismo para a dor real, para a compaixão e o perdão, para a paz e, sobretudo, para as justas indignações. Vem aí o pós-ódio.

Humberto Pereira

Jornalista, ex-frade dominicano e criador e diretor do ‘Globo Rural’ por 38 anos