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O Manacá-da-Serra (para Francisco Iglesias)

14 de fevereiro de 2019

 

Era um tempo de beleza sem exigência, Francisco. E ele floriu exuberante. Sei o que você vai dizer:  lugar comum. Mas sou forçado a cometer esta falta de criatividade. Ele floriu como se não houvesse opção. O manacá-da-serra da Rua República Argentina exuberou. Isso. Um neologismo para lembrar Rosa e seus caderninhos, cheio de palavras e desenhos.

 

Sim, Francisco, o manacá exuberou. E de uma forma tão encantadora que nem o espanto explica. Olha: já faz mais de uma semana e não se vê uma só flor ou pétala caída no asfalto. Nem na calçada. Será que ele inventou de ser eterno, além de exuberante? Consulta aí seus alfarrábios. Quem sabe Rubem Braga, Antônio Maria, João do Rio, Humberto Werneck ou outro já letraram por um manacá de Belo Horizonte? Eu duvido.

 

Fui conferir. Peguei o carro e rodei a zona sul inteira. Dezenas de floridos. Uns magros, outros lotados, mas nenhum como o daquela rua. E Francisco, se você estivesse aqui, levaria para ver o que a Cemig faz com as árvores, na hora de podar. Você que morou na cidade a vida inteira nunca viu isso. Eu mesmo só levei em conta agora: eles cortam o alto das árvores em u. Isso mesmo. Só para os fios passarem no meio. Fiquei tentado a cometer o xingamento que rima com a poda. Mas passei a achar bonito. Como as árvores em u se embelezam por todo o abecedário, meu caro.

 

Por saudade do amigo, fui conferir se lá na Rua Levindo Lopes tem algum manacá florido. Tem nada. Eu teria que te levar na rua do exuberado. E imagino você de braços cruzados, cofiando o queixo sem barba. Depois de olhar muito, a gente ia virar as costas, descer a rua meio em silêncio.

 

– Exuberado, este manacá.

 

– E olha, é um tempo assim, sem exigências.

 

(Para Francisco Iglésias, com saudade)