fbpx

O milagre em Bibi Ferreira e seu plural

13 de fevereiro de 2019

 

Morreu hoje uma espécie de milagre. Mas se milagres não morrem e sim acontecem, como será? Milagres acontecem – morreu Bibi Ferreira. Seja como for, eu sou testemunha de um milagre. Na última vez que esteve em Belo Horizonte, há dois anos, no Teatro Sesiminas, ela estava afônica. E gripada. Corpo doendo, com falta de ar, se arrastava. Hora de começar o espetáculo, seu parceiro e empresário Nilson Raman caminha com ela, lentamente, na penumbra da coxia. Param à sombra, na divisa da entrada do tablado. Abre a cortina, o canhão ilumina o canto do palco e o milagre se materializa: ajeita o corpo, larga a bengala, caminha até o centro do palco e… canta.

 

Instantâneo, a artista rejuvenesce 60 anos. A transubstanciação da voz e corpo em alma, o milagre nos tímpanos. Até o silêncio observa aquele ser humano mínimo sugar toda a atenção do mundo para si. “Quando estou no palco, é um momento de comunhão. É quando, através de vocês, me encontro com Deus”, ela disse.

 

E assim foi, por décadas e décadas, com a luz forte do canhão sobre sobre seus olhos, ofuscando o público. Só sentia a presença, imaginava os olhares, tragava a energia. Não há como escapar de Drummond, a respeito de Cacilda Becker, numa paráfrase: “Morreram Bibi Ferreira – ela era tantas…”

 

Vou além: milagres não morrem. Se transubstanciam. Que um perpétuo aplauso acompanhe sua chegada à outro plano, enquanto neste ficamos encantados, à mercê delas, as Bibi Ferreira.