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O tempo de Fernanda Montenegro em itinerário fotobiográfico

4 de agosto de 2018

Tudo ia muito bem no olhar-ler-e-reler-e-olhar do “Itinerário Fotobiográfico” da querida Fernanda Montenegro. Quase 500 páginas e oito anos de cuidadoso e demorado bordado de bilhetes, textos exclusivos, matérias de jornal e fotos, muitas fotos. Mas quando vi as mãos suspensas sobre os feijões em “Eles não usam black-tie”, desabei. Veio a exata sensação do filme, com Gianfrancesco Guarnieri, sentado ao seu lado, na mesa, o tempo parado no dedilhar de feijões. Quase desidratei de chorar, igual à primeira sessão, no Cine Palladium, em BH. 

O tempo salta e me vejo ao seu lado, no “Sempre Um Papo”, na Cemig, nos anos 80, em pela temporada do corajoso “The Flash and Crash Days”. Aproveitou para autografar a biografia “O Exercício da Paixão”, escrita por Lúcia Rito, uma beleza de texto, infelizmente, esgotado. E como morreu cedo, a Lúcia, aos 53 anos, vítima de câncer. Taí um livro que merecia ser reeditado. Rimos muito do moço que estava atrás do poste, encondido. Ao chegamos perto, ele pulou na nossa frente e fez aquela famigerada pergunta: – Lembra de mim, Dona Fernanda?

Mais um salto e vejo a querida Carla Camurati esgueirar-se pela coxia da Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, absolutamente lotada, para a palestra com outra dama, Lygia Fagundes Telles. Orgulho imenso ao vê-la sentada em uma cadeira comum, não havia lugar na platéia. Semanas depois, a mesma coisa com Lya Luft, que inaugurava uma nova e exitosa fase, com “Perdas e Ganhos”. Desta vez tomei o cuidado de reservar um lugar para ela.

Paralelo ao caminhar do ler-ver do livro, a história do teatro, do cinema, do rádio e da televisão brasileira. Um Carlos Drummond de Andrade passou por aqui e disse que para saber de sua vida era só ler seus poemas. Não é tanto, mas com Fernanda Montenegro é quase isso. Sua trajetória nada tem de linear. Mas é corajosa e carregada de conceito. Basta acompanhar a escolha dos personagens, das peças, das novelas, dos filmes. Uma a uma, as fotos vão revelando uma espécie de “Tempo-Fernanda” que, além de embevecer, ensina. Como é atravessar uma vida com tanto conteúdo, tanta leveza e tanto respeito?

Fiquei longos minutos de mãos dadas com Dona Fernanda, em Paraty, onde fui ter com Danilo Miranda, diretor do Sesc SP, um mentor do livro e tanta coisa mais. Longos minutos de mãos dadas, conversando sobre a temporada do “The Flash” em Belo Horizonte, o tempo do teatro na sua vida, memórias esparsas. Ali descobri o melhor do “Itinerário”: as páginas ausentes, no final do livro. Com certeza absoluta, serão dezenas, ainda, no correr do “Tempo-Fernanda”, esta força repleta de gentileza, magia e mistério.