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Os segredos de um texto da Mestra Ana Maria Machado, hoje.

15 de abril de 2019

 

A querida Ana Maria Machado, em um texto curtíssimo para “O Globo”, hoje, planta segredos essenciais nas entrelinhas. É necessário pegar as palavras, revirá-las do avesso para desvendar os achados. “Ora direi, ouvir estrelas” revela, mais abaixo, a importância de se ler histórias desde cedo. Repito: DESDE CEDO. E mais: BOAS histórias. Aqui, a frase inteira:  “Os bons livros lidos desde cedo abrem o pensamento para julgar melhor”. A segunda parte da frase resume a mentalidade cruel da atualidade: o que é mais importante além de se abrir o pensamento para julgar melhor?

 

A escolha dos livros como exemplo é cuidadosa e reflexiva. Traz à tona, também, a necessidade de ser ler livros de ficção. Leitura que “deixa marcas” e “ ensina que há um limite além do qual a carruagem suntuosa volta a ser abóbora cercada de ratos”.

 

E finaliza mandando a chave: “entre os contemporâneos, deliciam-se com Ruth Rocha, seu “Reizinho mandão” e seu “Rei que não sabia de nada” — para não falar em sua “História de rabos presos”. Quem não leu, leia. Quem já leu, entendeu tudo. Tudo mesmo!.

 

Poucas vezes li um texto no qual o jornalismo se oferece à crônica com tanta maestria – palavra perfeita para definir esta Ana Maria Machado: maestria, de Mestre.

 

Obrigado, mil vezes, Mestra Ana Maria Machado.

 

Abaixo o texto, roubartilhado de “O Globo”.

 

Ouvir histórias

Os bons livros lidos desde cedo abrem o pensamento para julgar melhor

 

Ora, direis, ouvir histórias… mas é o que proponho neste mês que celebra o livro infantil. Internacionalmente, pelo aniversário de Andersen dia 2. No Brasil, porque Monteiro Lobato nasceu a 18 de abril.

 

Narrativas falsas criam fake news, espalhando mentiras como se fossem reais. Mas o que vale é o contrário: a ficção que finge ser mentira para revelar a verdade.

 

 Há poucos dias, um deputado leitor disse que a prioridade do MEC vinha sendo lutar contra moinhos de vento. Outro viu que o ministro estava no bico do corvo.

 

Os bons livros lidos desde cedo abrem o pensamento para julgar melhor. Sejam originais ou recontos de clássicos. Sobretudo se chegam pelas mãos de adultos capazes de orientar uma leitura crítica e fecunda. Referências para toda a vida. Ajudam a se mover entre mentirosos como Alexandre, o Barão de Munchausen ou Pinóquio, sabendo em cada caso do que se deve rir ou ter pena. E aquilo que não dá para engolir, como faz o menino que anuncia que o rei está nu, e espertalhões querem enganar todo o reino.

 

O convívio com a leitura de ficção deixa marcas. Indaga “Para que essa boca tão grande?” Mostra que um dia mudará a resposta do espelho à pergunta de quem é a mais bela de todas. Ensina que há um limite além do qual a carruagem suntuosa volta a ser abóbora cercada de ratos. E que quem finge ser Robin Hood pode apenas estar deslumbrado com as riquezas da caverna de Ali Babá.

 

Leitores de histórias sabem que há tesouros a descobrir num texto, mais camadas do que as exigidas pela simples reação imediata de um clique . Já encontraram Alice sem rumo, sem saber para onde ir, mas capaz de enfrentar uma Rainha de Copas que insistia em mandar cortar cabeças a torto e a direito, dando primeiro a sentença e só depois levando a julgamento. Entre os contemporâneos, deliciam-se com Ruth Rocha, seu “Reizinho mandão” e seu “Rei que não sabia de nada” — para não falar em sua “História de rabos presos”.