fbpx

Os verbos deste janeiro de 2019

8 de janeiro de 2019

Zé Celso

De uma hora para outra, Zé Celso amuou. Amuar é um verbo bom para o verão de 2019. “As pessoas estão com medo de serem quem são”, disse, “não veem mais a delícia, só a dor”, completou, brincando com a música do Caetano. 

- Mas não é só isso. Tem a história do repertório. 

- É assim: todos tinham seus argumentos, suas falas prontas, o discurso na ponta da língua quando o assunto era aquele. Ou esse. A história das coisas corria seu curso como um rio, assim naturalmente. Os LGBTs, os negros, os pobres, os famintos, os drogados, os alcóolatras, os índios, os panicados, os neuróticos, os medrosos – todos seguiam seu rumo turbulento. Naturalmente, 

- Aí aparece o medo e sufoca o repertório, interrompeu, na primeira respirada que Zé Celso deu. 

- Dizer o quê mesmo? Dizer para quem? Quem é o interlocutor? Qual o veículo de comunicação? Como utilizá-lo? O que somos agora fomos? Qual será a serventia de tanta modernidade? E as palavras? Para que servem mesmo? 

- Sei lá. Sobre o que a gente estava falando? 

- Amuar. O verbo amuar, de amuado. 

- Mas tem outro. Tem o verbo subestimar. Palavra que traz consigo outras, como depreciar, desapreçar, esnobar, desvalorizar, desrespeitar, menosprezar, desconsiderar, desprezar, desdenhar, desapreciar, vilipendiar. Se deixar usar. Subestimar-se.

- O verão de 2019 trouxe o tempo do amuar e o jeito de subestimar-se. Em paralelo, os artistas, que conhecem a mágica da Fênix, perderam a vontade de renascer. 

- Se for das cinzas, destas cinzas, o que se formará? Qual corpo? Como será? E valerá a pena? Zé Celso perguntou. 

- Não importa. Não importa, mesmo. É tempo de, finalmente, ser o que se é, de criar um novo repertório, de inventar novas linguagens, de renascer do pó, de preferência, do pó bíblico, de trocar fluidos, sensações, confidências, revelações. 

- Tá certo, é tempo de amuar. Mas vamos deixar chegar o amar. É tempo de exercer o contrário de subestimar-se, que é amar-se. E aprender com o que temos agora: o valor dos amigos e amigas, o valor da lealdade, o preço sem preço na separação do joio do trigo, do óleo e da água. Guardar amigos e amigas. 

- Cabe de uma coisa? É hora de agarrar José Celso Martinez Corrêa e perguntar: 

- Zé Celso, o que nós fizemos? Responde, por favor? Fala o quanto quiser, somos todo ouvidos. Nós sabemos, demorou - demorou a gente te perguntar. Mas estamos aqui. Temos todo o tempo do mundo. Pode dizer tudo. 

===================================================

PS - Lembrete: de 09/02 a 14/02 estão abertas as inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura. Lembrando: Juliana Leite, vencedora do prêmio, na categoria Romance levou também o APCA. Mais informações: www.sesc.com.br/portal/site/premiosesc