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Pelo direito de espirrar – e tossir, ao mesmo tempo.

22 de março de 2020

 

O outono chegou ao Brasil. Como todos sabem, é a estação em que os hospitais ficam lotados de alérgicos. As folhas caem e o pólen surge. Frequentemente me sinto um nariz. Eu sou todo um nariz e entupido. Até os 40 anos, nunca respirei. Minha infância foi de gripes, resfriados e muito, muito Benzetacil na bunda. Doía tanto que não era incomum sair da Farmácia Santa Marta mancando. Isso sem falar do tamanho da agulha – até hoje o glúteo tem memória da dor da picada.

 

Aos 40, decidi operar. Com todos aqueles nomes difíceis de pronunciar: desvio de septo, pólipo, carne esponjosa. Quando acordei, estava lá a Dr.a Mirian Cabral, de máscara e dos olhos miúdos. Subiu uma sensação lisérgica, estonteante, estratosférica, uma viagem de ácido? Era oxigênio! Nunca tinha aspirado tanto, quase desmaiei. Assim, quarentão, finalmente comecei a respirar.

 

Mas o tempo me trouxe aqui, às vésperas dos 60. E 18 anos se passaram da cirurgia. Os tais nomes difíceis voltaram, e me encontro novamente jovem, com os mesmos sintomas: sinusite, tosse, espirro (ah, o espirro!…) e alergia, muita alergia. Hoje tive vontade de fazer uma camiseta com o nome “SIM” grande e “sou alérgico” pequeno.

 

O bom Antônio Grassi me lembra do conto de Gogol, “O Nariz”, que inspirou Shostakovich a compor uma ópera cômica sobre a qual William Kentridge fez vídeos histriônicos. Estão lá no Inhotim. Mas o barbeiro que encontrou o nariz de um burguês no copo não me transforma em um nariz – reclamei com o Grassi. Mas estava errado: é esta a questão hoje. Eu sou um nariz.

 

E um nariz entupido, no outono, estação na qual o ar, o tal oxigênio, fica lotado de pólen das folhas de relva. E me lembro bem quem me disse isso: Dr. Henrique Salvador, do Hospital Mater Dei. Aí que me dei conta que o livro de Walt Withman fala de respiração o tempo todo. Sim, eu fiz, quando jovem, um teste de alergia, aquele estranho, em que uma enfermeira inodora e simpática espeta, subcutaneamente, umas 15 substâncias, em bolhas mínimas, no braço. Cada uma é um tipo – ácaro, querosene, hidromel, cachaça, sei lá! O diagnóstico foi, digamos, definitivo: – você é alérgico a fungos do ar. Parei o mundo e perguntei: – moça, por acaso os fungos do ar não moram no oxigênio? Sou, por acaso, alérgico ao planeta Terra, ao universo?

 

Agora vamos ao principal motivo desta crônica: – sim, sou um cara que espirra. Em outros tempos, era matemático: ciclos de 10 espirros seguidos. Atualmente está pior: ando espirrando e tossindo ao mesmo tempo. Outro dia, durante um almoço. É uma experiência de vergonha “não alheia” terrível isso de aspergir comida na mesa, na frente de desconhecidos. E parece trombada em cruzamento – quando você percebe, só ouve a lataria amassando. Já aconteceu comigo duas vezes, juro. Minha médica explicou de novo: é alergia.

 

Pronto, acabei. Ah, eu espirro gritando Atchim – treinei a infância inteira à exaustão. Eu sou todo um nariz entupido e tenho a esperança de não ser linchado ao espirrar tossindo.