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Conversa com Marina Colasanti no anoitecer de Drummond

25 de outubro de 2018

Pensando em tudo em que estamos vivendo no Brasil, hoje, continuamos trocando percepções. Foi quando Marina Colasanti, no táxi do Nilson, em São Paulo, depois de um breve silêncio, disse:

– Desta hora eu tenho medo.

E franziu a sobrancelha, tentando lembrar:

– Sabia este poema de cor…

– José Miguel Wisnik colocou música nele. Busquei no Youtube, achei. Ouve, ele tocou no Fliaraxá deste ano, foi lindo.

O piano de Wisnik ressoou como um sino – e a ideia era esta mesmo – durante parte da viagem.

– Este poema diz muito sobre o tempo de agora.

– Mas como pode, se foi em escrito em 1945? Mas fácil entendê-lo naquele pós-guerra.

– Mas ele me parece um poema para a tristeza das dezoito horas

– Agora são 18h05.

Lá fora “somente buzinas”,  pensei. O último verso, quando os corvos bicam o seu passado, “bicando em mim”, lembra o círculo dos violentos contra si próprios. Neste círculo da “Divina Comédia”, os suicidas passam a eternidade com as harpias bicando seus corpos.

– Eu nunca entendi porque ele dedicou este poema, tristíssimo, para Dolores, sua mulher. É um poema anti-romântico.

O resto da viagem foi conversa jogada fora, com os versos do “Anoitecer” rodando. Eu pedi, ela encerrou o “Sempre um Papo” no Sesc Santo André fazendo lendo o poema.

Cheguei em casa, busquei a leitura do craque Antonio Cícero no site do IMS.

E anoiteci, em um poema sem presente.

A.

Leia assistindo a fala de Antonio Cícero. Só teclar no quadro abaixo.

 

Anoitecer

A Dolores

 

“É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

 

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

 

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

 

Hora de delicadeza,
agasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.”

 

(Carlos Drummond de Andrade
In: A Rosa do Povo, 1945)