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Reagir, Agora e Sempre, por José Eduardo Gonçalves

24 de julho de 2019

 

O “Mondolivro” capturou o texto de José Eduardo Gonçalves, publicado em seu perfil pessoal no Facebook e replicou aqui. Leiam, é importante. Um trecho: “A saber: Toda mulher é puta. Todo humanista é viado. Todo negro é suspeito. Todo gay é nojento. Todo indígena é preguiçoso. Todo ambientalista é anti-patriótico. Todo cientista é inconfiável. Todo artista é tarado. Todo político é vendido. Todo jornalista é pária. Todo escritor é lixo. Todo professor é comunista. Todo imigrante é um usurpador.” – adivinhem quem pensa assim?

 

Segue, abaixo, na íntegra.

 

 

Na última semana, os brasileiros ouviram frases dignas de compor uma Antologia da Brutalidade Cínica. Vamos a elas:

 

Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Os dados sobre o desmatamento da Amazônia não coincidem com a verdade, já mandei ver quem está à frente do Inpe para que venha a Brasília explicar. Se não puder ter filtro, vamos extinguir a Ancine. Nossos embaixadores nos EUA não fizeram nada desde 2003. Daqueles governos de paraíba, o pior é do Maranhão. A Miriam Leitão foi presa indo para a guerrilha do Araguaia, depois conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada.

 

Cinismo. Deboche. Leviandade. Ignorância. Crueldade. Pequenez. Em cada frase, um pouco de tudo isso. Ou tudo junto.

 

O conjunto de idéias e opiniões que veio à tona em apenas seis meses seria histriônico, não fosse estarrecedor. Trata-se de uma guerra declarada contra o conhecimento, a ciência, a imprensa, as universidades, os professores, as mulheres, os negros, os trans, os artistas, os pensadores em geral, os ambientalistas, os defensores dos direitos humanos. Ninguém presta.

 

Discordo frontalmente da idéia corrente, disseminada por gente que deveria ser mais sensata, de que o fundamental é fazer as reformas econômicas, o resto são detalhes que não deveriam ocupar a agenda do presidente. Argumento pusilânime. Ninguém em sã consciência pode torcer contra a retomada da economia. Mas nenhum cidadão deste país deve ignorar as barbaridades cometidas rotineiramente contra a democracia e as conquistas da cidadania em nome de um eventual acerto na economia. Não vale crescer a qualquer preço. A História já nos deu inúmeros exemplos deste caminho tortuoso.

 

O preço da ignorância, da miséria intelectual, da covardia contra os mais fracos, da violência contra as minorias de gêneros diversos, da sanha devastadora contra o meio-ambiente, do desapreço pela educação pública, este preço nós não podemos aceitar.

 

O exército de bestas digitais não brinca em serviço (nesse exato instante alguém está descarregando um petardo de insultos contra mim, obviamente), a todo instante estamos submetidos a mentiras deslavadas, a injúrias, ofensas e indelicadezas. O outro – aquele que discorda – está sempre ameaçado. Com muito orgulho, nesta hora eu sou o outro. Não tenho medo das bestas. Tenho medo do que possa sobrar da sociedade depois deste tsunami de violência verbal, física, moral, ética, social. É muita mediocridade.

 

Basta ver a linguagem. O português tacanho, a retórica inflamada e turva, as agressões gramaticais, o primarismo vocabular. Tudo é raso. Afinal, no idioma em voga, tudo é muito básico e taxativo (assim como não há aquecimento global, como o trabalho infantil enobrece, como os EUA são o farol do mundo, como não houve ditadura no Brasil. Toda verdade é simples e não suporta contestação).

 

A saber:

 

Toda mulher é puta. Todo humanista é viado. Todo negro é suspeito. Todo gay é nojento. Todo indígena é preguiçoso. Todo ambientalista é anti-patriótico. Todo cientista é inconfiável. Todo artista é tarado. Todo político é vendido. Todo jornalista é pária. Todo escritor é lixo. Todo professor é comunista. Todo imigrante é um usurpador.

 

O que fazer?

 

Sim, este governo foi eleito. Pregar o golpe seria recorrer ao discurso que originou o golpe anterior. Não se brinca com a democracia. Deu no que deu. Mas é preciso perguntar novamente, e nunca deixar de perguntar: o que fazer?

 

Ou reagimos ou reagimos. Não há saída.

 

Como? Mantendo a lucidez. Aguçando o espírito crítico. O foco é perseverar naquilo que sabemos fazer. É continuar a remar contra a maré da barbárie. Cada um que faça o seu melhor.

 

No meu caso, isso implica em continuar a escrever, editar, opinar, publicar, valorizar tudo o que seja em prol dos livros, da literatura e da cultura, lutar pela continuidade de projetos, inventar novos projetos, colocar idéias em circulação.

 

Se o que sei fazer é pouco, é deste pouco que vou me alimentar para não sucumbir.