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Serão as livrarias, astronautas?

15 de novembro de 2018

Os astronautas leitores

A Livraria Leitura é uma empresa familiar, que cresceu aos poucos, cuidadosamente, em um método próprio de gestão. Fundada em junho de 1967, por Emídio Teles de Carvalho, na famigerada Galeria Ouvidor, no centro de BH, hoje tem Marcus Teles, 52, à frente do Grupo. Membro de uma família de 15 irmãos, onde quase todos trabalharam no ramo, Teles convive com este mundo desde os 13 anos. Aos 18 começou a gerenciar. Já são, portanto, 39 anos de vida no interior de uma livraria. 

O sucesso da Leitura deve-se, principalmente, pela habilidade em conciliar o mix livros-papelaria-presente-CD-DVD-eletrônicos-games-e-outros. Outra diferença é na aquisição dos livros. Ao contrário das grandes redes, que compram uma tiragem alta de um título e distribuem para as suas lojas, as unidades da Leitura tem autonomia - cada uma tem liberdade para decidir o que comprar. E, segundo informações do próprio Marcus, o estoque de todas as lojas, reunidas, somam 250 mil títulos - só as do Pátio Savassi e BH Shopping tem 60 mil - “e com muita coisa já esgotada”, completa.

Com a crise da Saraiva e da Cultura, uma certa lógica indica que a Leitura pode ser uma solução. Hoje, o “Estadão” soltou uma matéria informando a intenção de compra de cinco pontos recentemente fechados pela Saraiva. São muitos os fatores que influenciam nesta lógica, mas eu insisto em um: o chamado "fundo de catálogo" das Editoras. Vou explicar: a Leitura tem uma política muito objetiva de compras associada aos lançamentos e itens de venda imediata. Mas aí reside o problema: o que faz a Editora com o estoque dos livros deste "fundo"? São aqueles livros considerados eternos, clássicos? Vira encalhe? É o que está acontecendo.

O desafio comercial das Editoras reside no volume impressionante de livros novos enviados mensalmente às prateleiras e o estoque de produtos em catálogo, guardados em seus depósitos. Vou dar um exemplo: uma editora pequena ou média tem picos de êxito, com um ou dois títulos que vende bem. Estes, sim, as  livrarias  compram. E o “fundo de catálogo”, quem compra? Como distribui-los? Nesta linha, já até surgiu uma inovação: a Outlet de Livro, um site que recentemente virou livraria física, na Savassi, em Belo Horizonte, especializado nestes que são chamados de “saldos”. E olha que eu nem toquei no assunto  “consignação”, apontado por muitos como o grande vilão da cadeia produtiva. Pulei também as vendas online, os sites de livros usados, e fato de que a Leitura, há alguns anos, de forma inusitada, simplesmente fechou o seu home page de e-commerce. 

Como podem ver, esta é uma estrada que alterna pisos de pedra, chão e asfalto. Uma estrada na qual o modelo de negócio não acompanhou a velocidade das transformações da sociedade. Afinal, até hoje, se uma livraria precisa fazer um balanço, faz o quê? Desce todos os livros das estantes e… conta, um a um. 

Portanto… não serão as livrarias, astronautas, por agora. 

PS - O título faz uma brincadeira com o livro “Eram os Deuses Astronautas?”,  escrito em 1968 pelo suíço Erich von Däniken, no qual o autor teoriza a possibilidade das antigas civilizações terrestres serem resultados de alienígenas (ou astronautas) que para as épocas relatadas teriam se deslocado.