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Um atrevimento de Afonso Borges: ler um conto no rádio

19 de dezembro de 2018

Houve um tempo no qual o Brasil parava, eletrizado, junto ao rádio para ouvir as radionovelas. Afonso Borges arrisca e faz uma leitura do conto de sua autoria “Na divisa, os olhos de carvão em Celeste (Sobre a Igreja de São José e a dica de Paulo Coelho)”, que inspirou o título de seu livro “Olhos de Carvão” (Ed. Record). Abaixo, o conto. E AQUI, a narração, no Mondolivro da Rádio BandNewsBH. É um conto de suspense e terror que conta a história da Igreja de São José, no centro de Belo Horizonte.

 

De um lado, no alto, os seis signos do zodíaco. Do outro, os outros seis. O horóscopo inteiro nas paredes. Abaixo, salpicados, os quatro elementos da magia gravados nos azulejos. À frente, eles estão em todo o presbitério, até a altura do olhar, compondo uma cerâmica sagrada de fogo, terra, água e ar: os quatro elementos da magia. Pequenas gárgulas nos cantos. Dizem existir outras, em segredo.

 

Foi Paulo Coelho quem cantou esta pedra a Celeste – “a Igreja de São José, em Belo Horizonte, é lindíssima – assim como os seus mistérios. Encontre-os”. Ali estão 40 medalhões dos antepassados de Jesus, de Abraão até São José. Ao lado das janelas inferiores, os quatro evangelistas protegem os Doze Apóstolos. Seis Doutores da Igreja dormem acima dos arcos e nos altares laterais do lado direito, cenas da vida de Santo Afonso de Ligório, o fundador da Ordem dos Redentoristas, construtores da Igreja. Dizem que eram os Templários mais bravos.

 

Correu para lá. Ficou presa no trânsito e se atrasou. Chegou exatamente às dezoito horas, instante em que o céu e terra se misturam, num átimo. A missa em curso. Tonteou. Firmou no portal da entrada, a Igreja cheia. Logo alguém cedeu seu lugar para Celeste se sentar, bem no final. Aos poucos, melhorou. Só via as nucas, cabelos, costas. O Sermão corria moralmente.

 

Levantou olhar, enfim. No meio do público, à direita, gelou: um corpo com a cabeça horrenda virada para trás. Cabelos secos, pretos e lisos, dentes finos à mostra. Olhos de carvão cravados nos dela. Foram terríveis milésimos de segundos. De um salto estava fora da Igreja, transtornada com a visão.

 

Conseguiu chegar até o ponto de ônibus, subiu, sentou-se na janela. No caminho, em cima da marquise, um flash, um vulto. De cócoras, braços ao redor das pernas, olhos de carvão, ela o viu. Celeste sentiu o mesmo arrepio, gelou, congelou em calafrios. A escuridão veio e levou a sensação. Já estava chegando, em breve estaria em sua casa.

 

Desceu do ônibus e caminhou firme e insegura. Tinha lido tudo sobre a Igreja de São José. Inaugurada em 1910, a forma de uma perfeita cruz latina, os nomes dos padres holandeses redentoristas rodando em sua cabeça. No alto, quatorze santos de um lado e quatorze santas de outro, o zodíaco nas paredes, um sinal de que Deus é o Criador do céu e a terra. A magia.

 

Apagou a luz, rezou fervorosamente, queria esquecer tudo. Mas não conseguia dormir. O Rivotril à mão, tomou logo dez gotas, para apagar. E foi. Na divisa da porta, meio corpo para dentro, meio corpo para fora, olhos de carvão fixados nela.

 

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