fbpx

Um sábado de outono, em Inhotim

28 de abril de 2019

 

“Sabe de uma coisa? Nós vivemos muito pouco”, disse Bernardo. Lenine tocou de leve em seu antebraço, e concordou, emendando com uma história da Dona Terezinha, vizinha de seu sítio no Vale das Videiras, em Petrópolis, onde instalou o seu orquidário. Ela tem uma sapucaia, que produz um ouriço usado no cultivo de algumas espécies. Calçou a cara e bateu na sua casa:

 

– Dona Terezinha, eu vi que a senhora tem uma sapucaia. A senhora pode me ceder uma muda? Preciso do ouriço para algumas orquídeas.

 

– Posso! Mas quem planta sou eu.

 

Dona Terezinha colheu a muda, levou, plantou, fez a reza e molhou. Ia embora, ouviu, pelas costasTerezinha

 

– Dona Terezinha, muito obrigado. Mas quando é que vou poder colher o ouriço?

 

Pensou, coçou a cabeça, e…. “daqui a uns 60 ou 70 anos, meu filho”.

 

Uma longa gargalhada explodiu na mesa. O show do Lenine em Inhotim, neste sábado, trouxe um sopro de vida eterna ao ambiente. A conversa pausada, cheia de casos e histórias, era observada por Grassi com atenção. Inhotim está vivo, cada vez mais vivo, era a mensagem, era o astral no meio daquele paraíso que de perdido não tem nada.

 

Lembrando a polêmica sobre a filosofia e sociologia, Lenine mandou:

 

– Aristóteles jogou a toalha. No final da vida, depois de tanta filosofia, escreveu que o mais importante era rir.

 

E se o riso precede a felicidade e, com ela, os hormônios da longevidade, viveremos um pouco mais depois deste sábado musical e iluminado de outono, em Inhotim.

 

Com a noite chegando, os corações se juntaram naquela mesa. A vegetação nos acolheu, luz e sombra bordando os contrastes, pensamentos voando. Um sombrio Bernardo se revelou. Cada planta, cada flor, cada espelho d’água daquele lugar teve o seu olhar azul tornado em verde dedicado. Retirado desde os últimos acontecimentos, vive serenando as reflexões, salvando lembranças. Mas não desiste do sonho:

 

– Com a história da barragem, tivemos que reduzir custos. Outro dia descobri que acabaram com o Coral e a Orquestra formada por gente da região. Mandei voltar. Tem coisa que não pode cancelar.

 

Bernardo, neste ponto, se afasta da gestão e olha para a transcendência da arte como solução. Não adianta cortar custo de coisas que são para sempre. Música, canto, arte. O Inhotim tem, agora, responsabilidade dobrada: a revitalização de toda uma região devastada pela tragédia.

 

A conversa acabou antes do previsto, como um “até já” e não um “adeus”. Descobri um Lenine apaixonado por orquídeas, estudioso, praticamente um botânico autodidata. Um amor pelas plantas que o fez voltar ao assunto da eternidade:

 

– Tem só 20 anos que descobri as orquídeas. Por que não descobri há 40? Teria mais tempo para me dedicar.

 

A lembrança da morte veio com a resposta de Luis Fernando Veríssimo – “sempre que me perguntam pela morte, eu digo: – sou contra”.

 

Ao redor, um ecossistema amigável, entre o cerrado e a mata atlântica. “reúne o melhor dos dois, diz Lucas, um dos coordenadores”. No caminho, desligou os faróis, parou o carro. No escuro, sons esquecidos nos lembram de tempos imemorais. Sons de plantas, cheiros incomuns. Onde mora a natureza em nós? Isso o homem da cidade esqueceu.

 

Inhotim vive, além e ao lado dos homens, seus desejos e sonhos. A eternidade tem uma dívida com Bernardo Paz. Pode cobrar, Bernardo. Somos avalistas.