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Vamos ajudar um doido a nos salvar da tragédia?

5 de dezembro de 2019

 

Leandro Barbosa é doido. Aqueles doidos mansos e indispensáveis ao mundo. Olha o que ele fez e faz: desde o acidente com o óleo, ele percorre a costa brasileira documentando o saco de maldades resultante da tragédia. Ele corre atrás de onde os voluntários descartam o óleo recolhido, quem se feriu, passou mal ou ficou dias sem dormir. Ele está fazendo um trabalho importantíssimo, ao documentar os fatos que a grande imprensa não tem braços para apurar. Vamos colaborar para que ele tenha condições de continuar com o seu trabalho? A meu pedido, ele escreveu um texto que resume a labuta diária. Leiam por favor e… colaborem, teclando AQUI ou divulgando este, para que mais gente posso ajudar. Obrigado, Afonso.

 

O petróleo não acabou e segue transgredindo a costa brasileira

 

O óleo ainda é uma realidade, mas para o jornalismo parece que não. A falta de informação sobre a questão ainda é um desafio a ser superado

 

Esses dias, um fotógrafo me disse que ouviu de uma redação jornalística internacional que fotos do nordeste já não eram tão interessantes, já que o problema havia passado, e o petróleo estava no Espírito Santo. Um amigo que participava de um evento de produção de conteúdo, nos EUA, há poucas semanas, me ligou para dizer que lá fora muita gente não sabia das enormes manchas de óleo que apareceram na costa brasileira. Em pernambuco, uma amiga viu sua cliente surpresa por saber que ainda havia óleo nas praias brasileiras. Não são poucas as mensagens que recebo diariamente com questões relacionadas a poluição das águas, do peixe, mariscos, entre outros. Já até me pediram opinião sobre o cancelamento de uma lua de mel, em Alagoas. As questões são sinceras, mas também revelam um sintoma: a falta de informação.

 

Estou viajando pelo nordeste há mais de um mês, fazendo registros sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos, especialmente, às populações mais vulneráveis, dependentes do mar e da praia para viver. Uma iniciativa independente, que tem contado com recursos pessoais, de movimentos socioambientais locais, da ONG Parley e da produtora Arica Cinematográfica, além do financiamento coletivo que está no ar há uma semana. Como jornalista freelancer foi o caminho que encontrei para conseguir me movimentar às localidades atingidas. Comecei o meu trabalho por Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Depois fui para Maragogi, em Alagoas. De lá, voei para o sul da Bahia, onde estive em Ilhéus, Canavieiras e Boipeba. O trabalho é árduo, mas o maior desafio tem sido fazer com que os materiais produzidos ganhem mídia.

Aqui, o vídeo da campanha:

 

O conteúdo trata de fome, desemprego, do meio ambiente sendo transgredido pela ação humana. Os mesmos sintomas da desigualdade em que o país está mergulhado – e, de alguma maneira, acostumado a ver e ouvir falar a respeito. A diferença desta situação, é a causa: inúmeros pescadores, marisqueiras, ambulantes, beiradeiros, tiveram o quintal da sua casa, o local do seu ganha pão, invadido por uma substância tóxica, até então, sem dono. Se outrora lutavam contra a pobreza comendo e vendendo do que vinha do mar e rios, agora, nem isso eles têm. Em Boipeba, José, um pescador, me disse: “a gente não sabe se tá tudo contaminado. E eu vivo disso. Eu posso até me arriscar e comer, mas não posso vender e prejudicar as pessoas”. José se arriscar a consumir um peixe que pode estar contaminado, porque não tem dinheiro para comprar comida, nunca deveria deixar de ser notícia. Isso não é normal.

 

Sem um plano governamental efetivo para mitigar os impactos nos locais atingidos e longe do foco da imprensa, a população está à própria sorte. Dia 21 de outubro, recebi a seguinte mensagem, vinda de Corumbau, no Sul da Bahia: “tá desesperador, a população se intoxicou toda com o petróleo. Entraram no mangue mais de 100 pessoas para cortar e retirar [o óleo]. Ontem e hoje, já temos várias ocorrências de vômito, dor de cabeça, diarréia, ardência nos olhos e coceira na pele. Precisamos de ajuda!”. A situação ainda é grave, e a ânsia das redações pelo ineditismo tem ignorado isso. É legítimo e faz parte do jogo ir atrás do furo de notícia, mas quando isso atropela a função social da profissão o sintoma é transformar a dor do outro em algum comum.

 

Ouvi o chamado, e, desde o dia 25, estou entre Caraíva e Corumbau, com a fotógrafa Gabriela Barros, do movimento Salve Maracaípe. A região é uma Reserva Extrativista que também contempla a comunidade indígena Pataxó.

 

No pedido de ajuda, os moradores também disseram: “a gente precisa pôr a boca no trombone. Ajuda a gente a mostrar pro mundo o que tá acontecendo aqui”. Foram 7,5 km de manguezal atingido, em Corumbau. Segundo o técnico do ICMbio que eu acompanhei durante um monitoramento, são cerca de 20 anos para o bioma conseguir se recuperar. Em Caraíva, voluntários já retiraram três toneladas de petróleo, coletando com espeto de churrasco pequenos fragmentos que aparecem, todos os dias, nos 30 km de praia da região. São essas as histórias que nos propomos a contar. No fim de semana nosso trabalho para por falta recursos – caso queira apoiar o nosso trabalho acesse aqui. A gente não desistiu de continuar, mas por hora voltaremos para casa. Independente disso, nossa trabalho continua sendo dizer: o óleo não acabou.

 

 

Leandro Barbosa se formou em jornalismo, em 2016. Foi da primeira turma do Globo Lab Profissão Repórter, onde participou de uma imersão com a equipe do programa, em 2017. Cooperou na criação do coletivo Observatório do Funk, em BH, que tem como principal objetivo dialogar com órgãos públicos sobre a garantia de eventos em favelas e periférias. Já atuou em projetos da ONU contra o tráfico de pessoas e contrabando de imigrantes. Atualmente, atua como repórter freelancer para o The Intercept Brasil e Ponte Jornalismo. Nasceu em Jundiaí, SP, em 1986 e formou-se em BH, Faculdade Pitágoras, como bolsista do Prouni.