Zuzu Angel e Alberto Dines: a coragem, por Mauro Ventura

25 de maio de 2018

A estilista e figurinista Zuleika Angel Jones, a Zuzu Angel, tinha uma carreira consolidada quando uma tragédia atravessou sua vida: a tortura e o assassinato de seu filho Stuart durante a ditadura militar. Até então, era uma vida de trabalho e glamour. Como diz a designer Lucía Andrea, ela foi a primeira estilista do país a usar referências visuais e culturais de brasilidade como temática em suas criações de moda. Ganhou visibilidade internacional, vestia a elite e tinha entre suas clientes mulheres de militares.

A partir da morte do filho, ela dedica seus dias a descobrir o corpo, que nunca apareceu. Como era conhecida lá fora, e Stuart tinha dupla nacionalidade – o pai era um pastor americano -, mobilizou clientes como as atrizes Joan Crawford, Liza Minnelli e Kim Novak, conseguiu que o então senador Edward Kennedy levasse o caso ao Congresso americano e driblou a segurança do então secretário de Estado Henry Kissinger, em viagem ao Rio, para lhe entregar o dossiê que preparara. Fez da moda um instrumento de protesto, realizando um desfile-denúncia em pleno consulado do Brasil em Nova Iorque, com roupas estampadas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos: “O anjo ferido e amordaçado da coleção tornou-se o símbolo do seu filho”, escreveu certa vez meu pai.

Stuart fazia parte da luta armada. Era militante do MR-8 e esteve preso na Base Aérea do Galeão por atividade subversiva. No dia 14 de maio de 1971, foi barbaramente torturado, antes de ser amarrado a um jipe e arrastado pelo pátio do quartel, até ficar com o corpo todo esfolado. Volta e meia, com a boca quase colada ao cano de descarga, era obrigado a aspirar os gases tóxicos que eram expelidos pelo veículo. Submetido a toda sorte de sevícias, não resistiu.

A militância de Zuzu em busca do corpo do filho incomodou os militares. Na madrugada de 14 de abril de 1976, ela seguia para sua casa, na Barra, quando, num dos acessos do túnel Dois Irmãos (hoje túnel Zuzu Angel), em São Conrado, seu Karman Ghia caiu de uma ribanceira e ela morreu, aos 54 anos. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, o acidente foi na verdade um atentado provocado por um grupo ligado ao coronel do Exército Freddie Perdigão.

Nesses anos de busca, Zuzu tinha por hábito fazer a ronda na casa de três amigos – Chico Buarque, o dramaturgo Paulo Pontes e meu pai. Ela ia quase toda semana lá em casa, em geral na hora do jantar. Falava da busca e costumava dizer que, se algo acontecesse a ela, a culpa era dos assassinos do filho. Meses antes de morrer, entregou aos três amigos um bilhete, datado de 23 de abril de 1975, em que escrevia:

“Há dias, recebi o documento descrevendo com pormenores as torturas e o assassinato de que foi vítima meu filho Stuart Angel Gomes pelo governo militar brasileiro. Este documento está fora do país, em mãos de um dos parentes americanos do meu filho mártir. Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou outro qualquer meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho. Zuleika Angel Jones.”

A lápis, ela acrescentou: “Esteja certo que não estou vendo fantasmas.” No dia seguinte à sua morte, os três resolveram reproduzir à máquina cópias do texto para enviar pelo correio a parlamentares, colunistas e jornalistas. Cada um ficou com um certo número de envelopes que foram postados anonimamente em lugares diferentes para despistar. Meu pai enviou um dos envelopes do Méier. Paulo Pontes, usando o carro e o motorista de sua mulher, Bibi Ferreira, foi a alguns bairros do subúrbio. Chico mandou de Nogueira, onde tinha casa. A máquina Olivetti onde foram reproduzidos os textos foi jogada fora, na Serra.

Era época de censura aos jornais, e ninguém se atreveu a publicar a denúncia. Como contou esses dias Denise Assis Assis, houve uma única exceção: Alberto Dines. Ele dirigia a sucursal carioca da “Folha de S.Paulo” e, em sua coluna do dia 25 de abril de 1976, reproduziu, no primeiro tópico, sob o título “Na área da violência e da coragem”, o bilhete de Zuzu.

Um ato de coragem de Dines que merece ser sempre lembrado.

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