fbpx

60 anos depois, Costa e Maiakovski se encontram

1 de junho de 2020

 

Eduardo Alves da Costa é um poeta e dramaturgo carioca… e está vivo! Vladimir Maiakovski foi um poeta russo, panfletário, que morreu em 1930. Um mal entendido liga estes dois seres humanos há quase 60 anos.

 

Ouçam o Podcast Mondolivro, falado por Afonso Borges na Rádio BandNews Bhz, teclando nas plataformas abaixo:

 

SoundCloud

Spotify

Apple Podcast

CastBox

 

Eduardo escreveu um poema, na década de 60, que se transformou em um hino na luta contra a ditadura militar, no Brasil. O poema chama-se “No Caminho, com Makakóvksi” e é uma verdadeira manifestação de revolta à intolerância e violência daqueles tempos malditos. O poema ressurgiu durante a campanha das Diretas, aparecendo em postes, camisetas e outros.

 

O grande problema foi este: como o título do poema falava de Makakóvski, nasceu esta confusão. Inclusive, alguns dizendo que o verdadeiro autor era o Bertold Brecht.

 

E hoje, tornou-se incrivelmente atual.

 

Chama-se “No Caminho, com Maiakóviski”. Eis o trecho mais conhecido:

 

(…)

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

 

Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

 

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada. (…)

 

Sempre que vocês lerem, ou ouvirem este belíssimo poema, lembrem-se, por favor: foi um brasileiro, chamado Eduardo Alves da Costa que o escreveu.

 

Aqui, o poema inteiro:

 

No Caminho, com Maiakóvski
(Eduardo Alves da Costa)

 

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

 

In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira).