9 de dezembro de 2025
Tudo isso começou quando eu decidi doar exemplares do meu livro infantil “O Menino, o Assovio e a Encruzilhada”. Entrei em contato com a amiga Graça Sette, que me apresentou a história que aqui se segue, conduzida pela sua irmã, Adrianne Sette.
No Hospital das Clínicas da UFMG, a infância e a juventude não se diluem entre procedimentos médicos e longas internações. Ali se sustenta, com firmeza ética e sensibilidade humana, a ideia de que o direito de aprender não pode ser interrompido pela doença. A Pedagogia Hospitalar, amparada pela legislação que garante a continuidade educativa de crianças e adolescentes em tratamento, orienta um trabalho essencial que integra educação e cuidado em saúde.
No HC-UFMG, essa determinação se efetivou graças ao Município de Belo Horizonte, responsável por manter a equipe pedagógica que atende as crianças da rede municipal. O Estado de Minas Gerais, embora previsto na legislação, não compõe essa frente de atuação. Assim, e por ser um hospital-escola, o HC mobilizou intensamente seus projetos de extensão para sustentar uma prática educativa consistente, sensível e transformadora.
A origem dessa trajetória, entretanto, nasce da experiência pessoal da pediatra Adrianne Sette, que, ao acompanhar diariamente crianças em condições crônicas e complexas, percebeu a profundidade do impacto causado pelo afastamento prolongado da escola — para algumas delas, por meses; para outras, por anos. Muito antes de uma estrutura institucional, havia a percepção íntima de que algo essencial se perdia quando a educação deixava de compor a rotina dessas crianças.
Adrianne relata que não sabe precisar o ano exato em que essa reflexão se tornou ação — talvez 2012, afirma. Mas ela guarda com exatidão as raízes dessa compreensão: as lições de sua mãe e de sua irmã, Graça Sette, ambas professoras, que lhe ensinaram desde cedo que a literatura cura. Esse entendimento, somado à vivência na Pediatria, fortaleceu a convicção de que era preciso ir além do cuidado biomédico e assegurar às crianças internadas o direito de continuar aprendendo.
Foi durante uma conversa com Graça que surgiu o nome determinante para que a semente do projeto germinasse: Macaé Evaristo, então secretária de Educação de Belo Horizonte. O encontro foi agendado, e Adrianne foi acompanhada da enfermeira Monalisa Gresta — profissional admirável, que dedicou sua vida à UTI Pediátrica do HC-UFMG. Recebidas com acolhimento e visão ampla, encontraram em Macaé Evaristo a disposição institucional necessária para dar início a essa construção. Ali, de maneira silenciosa, começava a nascer a Pedagogia Hospitalar no HC.
O marco concreto desse processo foi a chegada da pedagoga Mariotildes Gomes, a querida Tide, seguida das pedagogas Iracema Cerqueira e Valéria Martins, que se tornaram pilares do trabalho educativo no hospital. Com sólida formação e experiência, assumiram a missão de recompor trajetórias interrompidas pela doença, restabelecendo vínculos com a aprendizagem, orientando famílias e articulando o diálogo entre o hospital e as escolas de origem das crianças. E com o apoio da eterna guardiã da qualidade e segurança do cuidado na Pediatria do HC – a Regina Celi Marques.
Atualmente, 52 crianças estão internadas no HC-UFMG. Para cada uma delas, Iracema e Valéria desenvolvem um trabalho que inclui contato com as escolas, solicitação de atividades curriculares, adaptações pedagógicas, quando necessárias, e orientação às famílias sobre seus direitos educacionais. Em casos em que a criança recebe alta, mas ainda não pode retornar à escola, o acompanhamento continua, garantindo que o processo educativo não seja interrompido.
O trabalho pedagógico se amplia por meio dos projetos de extensão da UFMG que atuam na Pediatria. O “Entre Páginas”, parceria entre a Faculdade de Letras e a Faculdade de Educação, leva livros físicos e digitais às enfermarias, transformando a leitura em ponte, companhia e instrumento terapêutico. A leitura, ali, é estímulo cognitivo, mas também abrigo emocional.
O projeto “Brincando e Aprendendo”, do curso de Pedagogia, atua na Pediatria e na Unidade de Hemodiálise, promovendo atividades lúdicas e criativas que ajudam as crianças a manter um vínculo ativo com o conhecimento. Muitas delas desenham, escrevem narrativas inspiradas nas leituras e experimentam formas de expressão que sustentam sua subjetividade mesmo em momentos de profunda vulnerabilidade.
A Pedagogia Hospitalar no HC-UFMG vai muito além da continuidade curricular. É uma prática que resguarda a dignidade da infância e da juventude. É a afirmação de que aprender não é um luxo, mas um direito estruturante, capaz de fortalecer emocionalmente crianças e jovens que enfrentam longos desafios clínicos. É, sobretudo, a demonstração de que a educação, quando integrada ao cuidado em saúde, produz efeitos que ultrapassam o ambiente hospitalar.
Quem conhece esse trabalho testemunha algo raro: um hospital que, além de tratar, devolve horizonte às suas crianças e jovens. Uma prática que confirma, diariamente, aquilo que Adrianne Sette aprendeu com sua mãe e com sua irmã Graça: a literatura e a educação também têm o poder de curar.
Com alegria, doei 30 livros e várias caixas de lápis de cor. E convido todos e todas para fazer o mesmo.