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A arte de levitar

11 de novembro de 2020

Por Chico Mendonça

A arte é indutora das mudanças graças a seu poder de encontrar brilhantes sob a poeira da rotina, achar lá no meio do pó mineral de nossa aridez a luz imperceptível aos olhos que se abrem de manhã para enfrentar um novo dia e se fecham à noite para buscar algum descanso. Criar transcende, assim como a experiência com Deus transcende, assim como a beleza transcende, sendo a transcendência a capacidade humana de elevar-se acima das cabeças, para, vendo-nos de fora da bolha, reencontrar nossas almas e a alma do mundo. O princípio existente anterior à crença de que a natureza humana é ruim, agressiva, destruidora desde sempre. Foi o dogma da separação que nos inventou nessa versão: a pessoa reduzida à matéria do corpo, único ser distinto da Natureza, fruto apenas do seu trabalho, desprovido da graça do espírito, inalcançável pelo mistério que há em tudo. Soberbo! Como dói essa solidão! Como pesa toda essa bagagem autodepreciativa que a separação nos obriga a carregar!

Transcender torna possível reinventar a vida, aproveitar as oportunidades que o cascalho sobre o chão duro nos oferece diariamente sob o mecânico movimento do sol. Se não é possível levitar sobre as cabeças de forma definitiva, é viável fazer outras escolhas tão logo nossos pés toquem novamente o cascalho. Ou voltaremos ao velho mundo que desaguou em Donald Trump e em seus aliados mundo afora. É a isso que se destina a arte e a cultura: inspirar as pessoas, lembrá-las insistentemente do seu poder ilimitado de escolha, de mudar o indesejável.

“Só precisamos entender a nós mesmos”, disse Mia Couto, no Fliaraxá deste ano inesperado. “A literatura é uma vasta abertura para outras visões, para a cosmovisão”, complementou Ailton Krenak, ambos fabulosos durante a Mesa “O Futuro das Almas e do Planeta”. Afinal, não se faz literatura sem alteridade, sem empatia. A arte e a cultura eliminam as fronteiras, todas elas, as físicas e as imaginárias – aquelas que nos prendem aos pensamentos ilusórios, exatamente como faz a pequena estaca amarrada ao pé do elefante.
E a literatura faz isso subvertendo o tempo, recriando a narrativa dos dias com os olhos da imaginação – os mesmos que observavam o cenário antes da primeira ofensa, do primeiro tiro, do desamor, do consumismo, da brutalidade dos tons pastéis com que nos acostumamos a cobrir a vida diária. Como fez a girafa de Araraquara e seu pescoço de 100 metros de altura, segundo a redação de um menino chamado Ignácio, lida em voz alta pela professora. Um outro menino, filho de uma lavadeira, reclamou. Não existe girafa com pescoço tão colossal e, mesmo falando uma mentira, a redação tinha merecido destaque, em lugar da sua que contava a difícil e real rotina de sua família. A mestra ensinou, então, aos alunos, que a redação do garoto Ignácio se destacara porque tinha a força da imaginação e da fantasia, algo de que, mais tarde, todos eles aprenderiam o valor. Ali nasceu, naquela sala de aula, o escritor Ignácio de Loyola Brandão, segundo seu próprio relato durante o Fliaraxá. Tanto quanto a girafa de Araraquara, sua obra eleva-se sobre nossas cabeças, sinalizando o caminho.

A literatura transforma memória em legado. Clarice Lispector chegou de mãos dadas com suas amigas Nélida Piñon e Marina Colasanti, sublime, imensa! Clarice em busca da felicidade, intuía um lugar onde seria possível encontrá-la. “Nélida, busque-me um amor!”, pediu. Clarice subitamente apaixonada por Cristo, irmanada com ele no sofrimento da Paixão. “Pai, porque me abandonaste?”, sussurrou ao ouvido de Marina. Reconstituída diante de nossos olhos encantados, por obra do amor das duas amigas, não havia, porém, nenhum sofrimento mais no rosto de Clarice, nenhuma solidão. O amor de Nélida e Marina libertaram a dimensão de Clarice.
“Ave, Clarice!”.

Por esse mesmo portal, passou a figura de Sô José, um servente do Grupo Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte, sempre descalço, mesmo quando usava seu terno em solenidades escolares. Os dedos esparramados no chão. Puxando pela mão a menina Conceição, ou outra menina pobre do Grupo, conduziu-a a um esconderijo no porão da escola, onde guardava um tesouro: as merendeiras esquecidas e nunca reclamadas. Ela poderia escolher qualquer uma, até mesmo o extraordinário modelo que a encantava tanto, com um corte em círculo na tampa para encaixar a garrafinha plástica para leite e sucos. De pés descalços, feito raízes, Sô José ajudou Conceição Evaristo a aprender a arte de transcender: “Tenho vocação para a felicidade!”.

Chegou ainda Joaquim José Ribeiro dos Santos, militante comunista e estivador em Santos. Pai de Djamila Ribeiro, referência na militância feminista da filósofa e escritora. Dedicado à educação dos filhos, levava a prole aos teatros. Antes do início das peças, ordenava que levantassem e contassem o número de negros na plateia. Quantos? Nenhum, só nós! – respondiam os irmãos. “Era constrangedor”, disse Djamila, mas o resultado da observação fez dela uma voz ressonante do feminismo negro.

Veio, também, Geraldo Bilé e sua generosidade, professor de Xico Sá no Cariri, professor o tempo todo, dentro e fora da sala de aula. Despertou o prazer pelas histórias orais, emprestou livros, ensinou a ler. Por fim, deu de presente um livro – “Os Frutos da Terra”, de Andre Gide. Mesmo tendo perdido o original, Xico nunca deixou de ter um exemplar em sua prateleira, por gratidão e cultivo da memória do mestre, ainda vivo. O legado.

Lembrar-se de alguém tem o poder de reconhecer a existência, declarar a presença, salvar do esquecimento e do abandono. Autor de “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, o português Bruno Vieira do Amaral explicou o título de seu livro: Dimas, o ladrão crucificado ao lado direito de Jesus, pediu ao mestre que se lembrasse dele no paraíso. Nada mais que isso, apenas que se lembrasse. A memória, arrematou Bruno, é o único caminho de salvação. E nossos pés levitaram mais uma vez sobre o chão duro em que pisávamos.

O post A arte de levitar apareceu primeiro em IX Festival Literário de Araxá.