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A cosmologia “cerebrocêntrica”

25 de junho de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O Sempre Um Papo dá sequência à programação de 2021, ano em que comemora 35 anos de realização, com mais uma transmissão ao vivo pelas redes sociais do projeto. O autor convidado desta quinta-feira, 24 de junho, foi o médico Miguel Nicolelis, premiado cientista e referência mundial na área da neurociência.

A conversa, mediada por Afonso Borges, girou em torno do último livro de Nicolelis, O Verdadeiro Criador De Tudo, publicado no Brasil pela Editora Planeta, em julho de 2020. A obra se vale de conceitos das mais diversas áreas do conhecimento – como a história, matemática, ciência da computação, arte, física e filosofia – para explicar como o cérebro humano concebeu o mundo como o conhecemos. Dessa forma, são apresentados os rumos da história da humanidade, a partir de princípios-chave recém descobertos da função cerebral.

O título do livro remete à ideia defendida pelo autor de que o cérebro está no centro do universo, pois este órgão do nosso sistema nervoso é que cria, confere significado e interpreta a realidade à nossa volta. Na obra, esta ideia é chamada de cosmologia “cerebrocêntrica”. Nicolelis brinca dizendo que “nenhuma estrela comemora seu aniversário, nenhum cometa tem ciência da sua trajetória (…). Somos nós que conferimos a nossa descrição do que é o universo“.

O autor conta ainda que sua visão como cientista mudou dramaticamente depois de escrever seu último livro. “Eu passei 40 anos da minha vida estudando neurônios e como eles se comunicam, trocam mensagens eletroquímicas e geram comportamentos. Então, me dei conta de que existe um outro nível de discurso e relevância em que a neurociência tem que penetrar”, afirma, fazendo referência ao arcabouço cultural e intelectual gerado pela humanidade ao longo da história.

Questionado por um dos espectadores da transmissão sobre a diferença entre mente e cérebro, Nicolelis respondeu que ele concorda com o ponto de vista de alguns filósofos de que não deveria haver um dualismo entre estes dois termos. “Essa pergunta é essencial, porque ela demonstra nossa necessidade de individualizar aquilo que a gente vê no mundo”, responde.

A trilogia finalizada

O Verdadeiro Criador De Tudo finaliza a trilogia iniciada, em 2011, com o lançamento do best-seller “Muito Além Do Nosso Eu. O livro discorre sobre como a tecnologia tem o potencial de transformar a sociedade humana possibilitando, por exemplo, a cura de distúrbios neurológicos como a doença de Parkinson. Nicolelis afirma que este livro é dedicado às descobertas científicas que ele fez na neurociência desde que saiu do Brasil para estudar no exterior, há mais de 30 anos.

Já o segundo livro, intitulado “Made In Macaíba e publicado em 2016, narra o processo de ensino da ciência em uma das áreas mais pobres do Nordeste. “[No livro], eu descrevo toda a minha aventura de tentar criar um instituto de ciências no Brasil com uma visão completamente diferente. Uma visão em que a ciência é um agente de transformação social e de transformação do ser humano”, afirma o neurocientista.

Ao todo, Miguel Nicolelis é autor de nove livros. Além disso, durante a transmissão, ele revelou que assinou, recentemente, um contrato com a Editora Planeta para publicar seu primeiro livro de ficção científica.

Esta foi mais uma edição do #SempreUmPapoEmCasa, com acesso gratuito e tradução simultânea em Libras. Acesse a gravação completa da conversa nas redes sociais do Sempre Um Papo: Instagram, Facebook e YouTube.

Frases

“Minha avó dizia para mim que o impossível é só o possível que ninguém pôs esforço suficiente para realizar” – Miguel Nicolelis

“O talento humano está em qualquer lugar. A questão é só encontrar quais são os Santos Dumont que estão prontos para decolar”. – Miguel Nicolelis

“Meu avô sempre me dizia que entre uma ópera e outra, se faziam milagres”. – Miguel Nicolelis

“Einstein dizia que ‘sem filosofia, a ciência é órfã’, e eu concordo com ele”. – – Miguel Nicolelis

“Eu costumo dizer que a pandemia fez com que a política no Brasil derretesse, porque a gente viu a falta de preparo das instituições e da classe política para responder às nossas necessidades como espécie”. – Miguel Nicolelis

“Nós precisamos voltar à sabedoria analógica dos nossos antepassados, da nossa pré-história, que olhava para esse mundo de uma maneira bem diferente (…)”. – Miguel Nicolelis

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro