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A história do Brasil por cartas celsianas

30 de abril de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo segue com a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 29 de abril, os convidados foram a jornalista Rosa Freire d’Aguiar e o escritor e atual prefeito de Ouro Preto (MG), Angelo Oswaldo para o lançamento do livro, organizado por Rosa, “Celso Furtado Correspondência intelectual: 1949-2004” (Companhia das Letras). A conversa foi mediada por Afonso Borges e contou com intérprete de Libras, sendo transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19.

Celso Furtado foi uma importante figura no Brasil, fundou e coordenou a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), depois se tornou ministro do Planejamento e Ministro da Cultura. Entretanto, com a imposição do Regime Militar, foi exilado durante 20 anos. “Ele tem um papel importantíssimo, criando a primeira lei brasileira de incentivo à cultura. Celso Furtado iluminou o pensamento brasileiro como uma das matrizes do pensamento econômico internacional e deixou uma obra vasta e de grande importância nos últimos anos da sua vida”, afirmou Angelo Oswaldo. Celso Furtado se dedicou a uma reflexão muito grande e a partir da sua própria vida, foi recompondo e analisando essa trajetória brasileira. “Esses registros autobiográficos são de grande relevância para qualquer estudioso da história do país e do nosso público. E nós tivemos sempre a presença de Rosa Freire d`Aguiar atuando de maneira paradigmática no campo da tradução e da edição”, completou.

Rosa, esposa de Celso, reuniu quinze mil cartas que o marido trocava com colegas intelectuais e decidiu compartilhá-las com o mundo. “Ela soube muito bem reportar cada carta ao seu contexto, às referências todas, aos registros necessários. Fico encantado como ela fez isso. Que coragem, dedicação, inteligência, sensibilidade e cultura têm Rosa Freire d’Aguiar”, constatou Angelo.

O momento que Celso mais praticou a arte epistolar, conforme Rosa, foi na época do exílio na França. “À medida que eu fui trabalhando e lendo os diários do Celso eu fui caindo também em muitas cartas e referências às cartas. Então, comecei a separar algumas. Quando ele estava no exterior foi quando mais escreveu e recebeu cartas, havia aqui um mar de cartas”. Ela explicou que o marido arquivava as cartas em pastas e, por mês resultava, em média, uma pasta. “Eu tinha pelo menos vinte pastas. Durante os anos todos que ele passou no exterior, porque ele só pôde voltar para o Brasil quando teve anistia. Ele recebeu cerca de 400 a 500 cartas por ano”, contou.

Esse processo foi muito trabalhoso porque além das cópias de cartas que Celso enviou, Rosa entrou em contato com algumas pessoas para obter as respostas. “Comecei a ler as cartas que chegavam porque me deu curiosidade. Recebi muitas respostas. Minha casa ficou ilhada entre pastas e papéis. Eu parava de ler as que tinham chegado e tentava achar o ano correspondente as que ele mandava em resposta. Isso deu um certo trabalho, não foi muito fácil, mas depois eu peguei o ritmo e fui embora”.

Ao organizar o livro, ela queria propor um material inédito e, por isso, procurou focar nas cartas dos exilados. “As cartas dos exilados são muito duras de serem lidas porque é sofrido, exílio não é para qualquer um, é difícil. E tem muitas cartas porque Celso é caçado no início de abril de 64, dois meses depois ele sai do Brasil”. Essa abordagem também proporciona um viés histórico para a obra. “Os amigos dele que ficaram no Brasil vão contando o que está acontecendo na história brasileira. Você tem, às vezes, a sensação de que está lendo um livro de história com pitadas sociológicas. A sensação que você tem é quase como se você tivesse lendo, pelo menos, um bom pedaço da história do Brasil por cartas”.

Os convidados também comentaram sobre o Centro Celso Furtado, situado no Rio de Janeiro, que congrega grandes intelectuais, principalmente aqueles voltados para institutos socioeconômicos. “O Centro Celso Furtado tem cadernos fantásticos com uma publicação de uma riqueza extraordinária, do ponto de vista da informação e da pesquisa sobre economia e outros tema sociais importantes”, relatou Angelo. O escritor ressaltou a importância do papel da jornalista para a consolidação do legado intelectual do Celso. “Só uma pessoa com intimidade que Rosa tem com Celso poderia se debruçar sobre essa correspondência e traçar um itinerário, consolidar uma leitura crítica dentro desse conjunto maravilhoso e nos oferecer esse livro que é a correspondência de Celso Furtado desde 1949 até 2004”.

Acompanhe o encontro na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=8YO4XpOAI_E 

FRASES:

“No nosso planeta, pouquíssimos brasileiros alcançaram a repercussão e mantém uma presença tão forte em todos os países como Celso Furtado”. – Angelo Oswaldo, 29/04/2021

“Nós podemos dizer que o brasileiro mais lido era Jorge Amado, depois talvez fosse Paulo Coelho, mas nas universidades talvez o brasileiro mais lido seja Celso Furtado”. – Angelo Oswaldo, 29/04/2021

“Desde de que ele lançou o seu clássico formação econômica do Brasil, uma leitura da construção do Brasil por meio da economia, Celso se tornou uma referência nos estudos sobre o nosso país e depois ele vem a ser um grande teórico do desenvolvimento pelo seu trabalho multiplicado por universidades do mundo inteiro”. – Angelo Oswaldo, 29/04/2021

“Celso Furtado recebeu cartas do mundo inteiro, das mais variadas personalidades da cultura, da economia, da política, de toda parte”. – Angelo Oswaldo, 29/04/2021

“Nesse livro, às vezes, me dá a sensação de que eles são amigos conversando entorno de uma mesa”. – Rosa Freire d’Aguiar, 29/04/2021

“De um modo geral, as cartas têm um grupo de intelectuais que estão ali discutindo. É um laboratório de ideias e propostas. E tem hora que esse laboratório é quase um caldeirão porque esquenta, porque eles falam com muita franqueza do trabalho intelectual do outro”. – Rosa Freire d’Aguiar, 29/04/2021

“A obra de Celso é de uma riqueza sensacional”. – Angelo Oswaldo, 29/04/2021

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro