fbpx

A importância de se aprender a aprender

29 de setembro de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O cientista, professor e escritor paraibano Silvio Meira participou da programação do Sempre Um Papo com o Sesc Santo André nesta terça-feira, 28 de setembro, para conversar com o jornalista Afonso Borges sobre o futuro da leitura e da reflexão. Durante o bate-papo, que contou com tradução em Libras, o autor também falou sobre as implicações que a hiperconectividade possui na educação, além das novas tecnologias que podem transformar completamente a vida em sociedade. A gravação da conversa, transmitida à 20h, está disponível no YouTube, Instagram e Facebook do Sempre Um Papo.

Silvio Meira iniciou a conversa falando sobre a dispersão e a falta de foco que marcam a atualidade. O autor defende a ideia de que vivemos no que se pode chamar de “o universo da atenção parcial contínua”. Esta expressão foi criada em 1998 por Linda Stone, escritora, palestrante e consultora que trabalhou por anos com alta tecnologia, em grandes empresas como a Apple e a Microsoft.

O ato de se prestar atenção em mais de uma tarefa ao mesmo tempo, no entanto, não é nenhuma novidade. Isto já estava presente nas comunidades originárias, onde se observava diversos fatores simultaneamente, como a presença de um predador, o tempo, o clima e os movimentos que aconteciam ao redor. “A diferença é que esta realidade está “visivelmente presente hoje em um formato digital conectado e interativo”, afirma.

Em contraponto, Meira considera que “muito mais gente está escrevendo agora e sendo corrigida (…) do que estava no passado”, fazendo referência aos corretores ortográficos presentes em plataformas como o WhatsApp e o Gmail. Esta correção sistemática presente no dia a dia das pessoas, pode fazer com que elas aprendam, a longo prazo, a forma correta de se escrever as palavras. Afonso Borges lembra que o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, afirma “que só escreve a palavra ‘Nietzsche’ depois de consultá-la no Google”.

Um dos maiores problemas enfrentados na área da Educação atualmente, segundo Meira, é o fato de que “as pessoas não estão aprendendo a se engajar em desafios muito longos que exigem uma dedicação e um foco muito grande para se entender alguma coisa e refletir sobre ela”. Isso ocorre porque as novas gerações, acostumadas, por exemplo, com o envolvente universo dos jogos online – onde se apresentam inúmeros desafios, recompensas e até mesmo reconhecimentos em relação a outros jogadores – não conseguem se interessar por algo pouco emocionante como ler livros densos e ouvir um professor falar metodicamente por horas a fio.

Esse problema no sistema educacional não é novo e já vinha sendo apontado por diversos teóricos da Educação ao longo dos anos, como John Dewey, em seu livro “Experiência e Educação“, escrito em 1938. No Brasil, o educador Paulo Freire já propunha novos processos de aprendizado no século XX. “A escola, como matriz de reprodução de um conhecimento passado por uma autoridade, já não funciona mais, há muito tempo”, afirma Meira, lembrando que o modelo educacional utilizado nas escolas permanece o mesmo desde a Idade Média.

Para superar essa falta de engajamento dos estudantes na educação, é necessário, segundo Silvio, repensar o conjunto de artefatos e lógicas que compõem o processo de aprendizado na escola. “É preciso mudar o papel do professor e as articulações entre professores e alunos. A gente tem que ter uma escola dialógica e estratégica. O principal papel do sistema educacional é estabelecer, nos aprendizes, um conjunto de fundações para que, durante suas carreiras (…), eles sejam capazes de guiar o seu próprio processo de aprendizado. É preciso aprender a aprender”, conclui.

Neste mês de setembro, Silvio Meira publicou o livro “O que é estratégia?” (Editora Paradoxum), em que discute, em apenas 21 tópicos, como as empresas e instituições podem criar estratégias vedadeiramente transformadoras em seus negócios.

* Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases:

“De uma certa forma, nunca se escreveu tanto no planeta Terra” – Silvio Meira

“Quando você vê, certos textos, em português, escritos no WhatsApp, você tem o sentimento claro de que é uma língua extraterrestre, derivada de ‘Klingon’ (língua falada na série Star Trek), por exemplo” – Silvio Meira

“As universidades, que são onde se formam os sistemas educacionais, existem hoje da mesma maneira como (funcionavam quando) foram criadas” – Silvio Meira

“A descoberta dos processos de administração do fogo, por parte dos humanos primitivos, foi, talvez, a revolução tecnológica mais radical de todos os tempos” – Silvio Meira