A médica que dedicou a vida ao tratamento da baixa visão e à inclusão social pela leitura

21 de dezembro de 2025

A médica que dedicou a vida ao tratamento da baixa visão e à inclusão social pela leitura

Uma história construída no SUS que une ciência, voluntariado, amor à leitura e impacto direto na vida de crianças, adultos e idosos

Falar sobre a baixa visão é urgente. Apesar de afetar diretamente a autonomia, a escolarização, o trabalho e a qualidade de vida de milhares de pessoas, essa condição ainda é pouco conhecida no debate público brasileiro. Uma de suas consequências mais silenciosas é o abandono da leitura. Muitas pessoas deixam de ler livros, jornais e textos cotidianos não por falta de interesse, mas por ignorarem que a sua condição pode ser tratada e reabilitada.

Diferentemente da cegueira total, a baixa visão se caracteriza pela presença de visão residual que, embora limitada, pode — e deve — ser estimulada. O problema é a desinformação. Ao ouvir que “não há mais o que fazer”, muitos pacientes se afastam de atividades fundamentais, como a leitura, comprometendo não apenas a visão funcional, mas também a inclusão social e a autoestima. Trata-se de um equívoco grave, com impactos profundos na vida cotidiana.

Divulgar a baixa visão é, portanto, uma necessidade social e de saúde pública. Não se trata apenas de informar sobre uma condição oftalmológica, mas de apresentar caminhos concretos de reabilitação capazes de devolver funcionalidade, independência e participação social. Entre esses caminhos, a leitura ocupa lugar central — não como passatempo, mas como instrumento terapêutico.

Esse trabalho tem raízes profundas no Hospital São Geraldo, referência nacional em oftalmologia e vinculado ao Hospital das Clínicas da UFMG. O serviço de Baixa Visão nasceu da iniciativa da oftalmologista Dra. Luciene Fernandes, fundadora e coordenadora do Centro de Reabilitação da Visão Prof. Nassim Calixto. Ao longo de sua trajetória, ela estruturou e consolidou um atendimento pioneiro, dedicado à reabilitação visual de pacientes muitas vezes considerados sem alternativas. Mesmo após anos de atuação, segue como voluntária em um campo complexo e ainda pouco reconhecido, sustentando uma convicção simples e poderosa: sempre há algo a ser feito pela visão funcional de cada pessoa.

O atendimento começa na consulta oftalmológica especializada, com avaliação do fundo de olho e exames de acuidade visual voltados para a visão funcional. Os testes são realizados, prioritariamente, por meio da leitura — começando por letras, passando por palavras e chegando a textos — para identificar com precisão as demandas visuais de cada paciente. A partir disso, são indicados recursos ópticos adequados, tanto para visão de perto quanto para visão de longe.

Na sequência, o paciente é encaminhado a uma equipe multiprofissional, formada por pedagogia, fisioterapia e terapia ocupacional. Cada área segue protocolos específicos de estimulação visual. No caso das crianças, o trabalho é decisivo para potencializar o desenvolvimento infantil e apoiar o processo de alfabetização. Utilizam-se brinquedos, materiais pedagógicos e literatura infantil com alto contraste, integrando cuidado, aprendizado e estímulo visual.

Esse cuidado se torna ainda mais precioso diante do aumento da sobrevida de bebês prematuros e do envelhecimento da população. A atenção aos extremos da vida — início e longevidade — exige olhar sensível e especializado. Nesse contexto, destaca-se também a atuação do oftalmologista Nassim Calixto Júnior, que se dedica ao acompanhamento de bebês prematuros com risco ou diagnóstico de baixa visão. Seu trabalho é voltado à prevenção da cegueira e tem salvado a visão de muitas crianças. Nos casos em que a recuperação não é completa, o acompanhamento contínuo busca melhorar a qualidade de vida e garantir integração, cuidado e estímulo adequado desde os primeiros anos.

O impacto desse trabalho vai muito além do aspecto clínico. Recuperar a leitura significa recuperar acesso à informação, à educação, à cultura e ao convívio social. Para crianças e jovens, isso pode representar permanência na escola; para adultos, continuidade no trabalho; para idosos, preservação da autonomia e da dignidade.

Apesar de sua relevância, a reabilitação em baixa visão ainda é pouco divulgada. Muitos pacientes chegam tardiamente aos serviços especializados ou sequer são encaminhados. Dar visibilidade ao que é realizado no Hospital São Geraldo é reconhecer a força do SUS, da universidade pública e de profissionais que aliam ciência, dedicação e compromisso humano.

A baixa visão existe, é frequente e pode ser enfrentada. E a leitura, quando orientada e acessível, continua sendo uma das formas mais potentes de devolver às pessoas o direito de participar plenamente do mundo.