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A verdadeira história do Brasil

28 de abril de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo segue com a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 27 de abril, os convidados foram  Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz para o lançamento do livro “Enciclopédia Negra” (Companhia das Letras). A conversa foi mediada por Afonso Borges e contou com intérprete de Libras, sendo transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19.

A “Enciclopédia Negra” começou a ser idealizada em 2015, a partir de uma ideia de Lilia e Flávio de realizar um projeto sobre a história da escravidão. “Resolvemos fazer primeiro um ‘Dicionário da Escravidão e da Liberdade’. Acionamos o Jaime e juntos tivemos a ideia da Enciclopédia porque sabemos que é mais fácil falarmos de um milhão de pessoas do que de uma, e faltam retratos de pessoas negras”, lembrou Lilia. Para Flávio, esse painel extenso de personagens foi um desafio. “Foi uma aventura porque fomos descobrindo a necessidade de cada vez incluir mais. O grande objetivo foi dar conta desse Brasil, com mais de trezentos e cinquenta anos de escravidão, sem pegar uma paisagem cristalizada desse período”.

Outro desafio dos pesquisadores se refere a pesquisa bibliográfica de arquivo, que envolveu desde a literatura mais clássica sobre escravidão, livros consagrados, do início do século 20, até dissertações de mestrado e doutorado atuais. “Têm personagens do século XVI até as experiências negras do pós emancipação, até o século XXI e todos são pessoas que, infelizmente, não estão mais entre nós. Também foi uma preocupação equilibrar personagens homens, mulheres e LGBTQ, porque a gente começou a perceber, nos primeiros estágios, que todos os personagens, lembravam personagens masculinos”, contou Flávio.

Segundo Jaime, o projeto não foi difícil de organizar porque os três tiveram muita sintonia. “Se tem uma palavra que define essa nossa aventura é uma generosidade de todo mundo, gerada de uma confiança mútua que temos um no outro. O projeto começou como livro, que já era ambicioso, foi se expandindo e foi ganhando tamanho a partir do momento que ele ganhava novos parceiros”.

Lilia também contou que no dia primeiro de maio será aberta uma Pinacoteca com mais de 100 obras, interligadas à “Enciclopédia Negra”. “A ideia é descolonizar a nossa imaginação”. Essa exposição vai possibilitar que os retratos que não entraram na Enciclopédia sejam exibidos. “O projeto é muito mais do que só um livro e a exposição. Ele é uma intervenção na memória, no imaginário, na construção do que a gente até coloca na nossa introdução, que é a nossa utopia, de um país mais republicano”, constatou Jaime.

Flávio relatou que para a seleção dos personagens que compõem da ‘Enciclopédia  Negra” deram preferência, além dos personagens menos conhecidos, àqueles sem retrato. “A ideia foi que a gente pegasse personagens que não há nenhuma  ou quase nenhuma iconografia no Brasil, justamente para não ficar com uma orientação prévia para um artista e, ao mesmo tempo, explorar ao máximo dessa imaginação da representação”. Jaime completou que além de escolherem personalidades que não tinham imagens feitas, eles ilustraram, também, personagens em que a representação não condiz com aquilo que entendem, como a representação do Zumbi. “Essas imagens além de não condizerem com o que a gente entende das pesquisas nossas e de outros historiadores, não representam a verdade. Não que as nossas imagens condizem com a verdade, mas elas, pelo menos, são uma representação feita por pessoas que se dedicam a estudar esses temas e essas personalidades”.

Os autores abordaram na “Enciclopédia Negra” mais de 550 personagens negros da história brasileira. “Existe uma historiografia tradicional que durante muito tempo foi preponderante no Brasil, que é uma história branca. E a presença negra é a história do Brasil. Inclusive o pós emancipação, no Brasil, que é o último país a abolir a escravidão, você tem uma experiência de liberdade negra cercada de escravidão”, destacou Flávio. Lilia explicou que as histórias que estão nos livros didáticos ainda são muito colonial e europeia, portanto, muito branca e masculina. “Há uma intenção forte dessa Enciclopédia de buscar por outros e outras protagonistas. Eles estão na história do Brasil, mas nós optamos por não os enxergar. Esse livro não é ponto de chegada, ele é ponto de partida. É um grande mutirão para que juntos mudemos a imaginação brasileira, que a gente fale de um Brasil mais plural, o Brasil que temos”.

Acompanhe o encontro na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=ayQ9b2MDoUo

FRASES:

“Enxergar é uma opção cultural”. – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

“Até o último momento que a gente estava escrevendo o livro, estávamos acrescentando biografia, a editora ficou louca”. – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

“Cada capítulo dá spoiler de um livro de história.  Isso porque falamos de todos os temas com essa rica historiografia da escravidão”. – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

“O grande objetivo foi dar conta desse Brasil com mais de 350 anos de escravidão, sem pegar uma paisagem cristalizada desse período”. – Flávio dos Santos Gomes, 27/04/2021

“Esse livro não é ponto de chegada, ele é ponto de partida” – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

“O projeto é uma intervenção na memória, no imaginário, na construção da nossa utopia de um país mais republicano”. – Jaime Lauriano, 27/04/2021

“Queremos uma história diferente sim, mas sem desigualdade”. – Flávio dos Santos Gomes, 27/04/2021

“A gente espera que os professores adotem essa nova versão do Brasil”. – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

“As histórias que estão nos livros didáticos, ainda é muito colonial e europeia, portanto, muito branca e masculina”. – Lilia Schwarcz, 27/04/2021

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro