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Aqui em casa brotou uma esperança

2 de junho de 2021

Por Andréa Pachá

O pesadelo da falta de palavras para descrever o desamparo no qual estamos mergulhados há mais de um ano foi se potencializando à medida em que os corpos de milhares de brasileiros se empilhavam. Vítimas de um vírus violento, e da irresponsabilidade no enfrentamento da maior crise sanitária experimentada no mundo, temos dormido e acordado assombrados pelo medo das perdas dos afetos, pela impossibilidade dos abraços e do luto, pela tristeza da submissão ao negacionismo que desconhece alteridade, humanidade ou compaixão. Viver, nos tempos do cólera, é um desafio cotidiano e exaustivo que silencia a indignação, pela falta de adjetivos para nomear tanta dor.

Cinco dias atrás, quando já imaginava que sucumbiria ao sofrimento que paralisa, recebo, pelo correio, uma caixa pequena, enviada por minha amiga Bianca Ramoneda. Um saquinho com terra, uma semente, um guia de orientação. Na embalagem e na semente, uma palavra gravada: esperança. A lembrança carinhosa, me arrancou um sorriso e aqueceu o coração, deixando-me esquecer, por alguns segundos, o cenário devastador. Enterrei o grão, reguei e esqueci de voltar a olhar.

Ontem cedo, ainda ansiosa pela falta das palavras que sempre me ajudaram a tentar compreender o mundo, sentindo-me em um claro bloqueio criativo e intelectual, chega uma mensagem de Diaime, em uma das minhas redes sociais. O texto, cujo autor me autorizou a publicação, diz assim:

“Boa tarde Dra. Andréa. Em 2008, eu me separei da minha esposa (a maior burrada da minha vida), e depois de mais alguns anos, nos divorciamos. No dia da audiência vc disse q ainda via Amor em nós, em nossos olhares e vc estava certa. Depois de 9 anos separados, e só tendo me afundado na vida, acordei, e resolvi correr atrás do tempo perdido. Lutei muito para reconquistá-la, mas graças a Deus consegui. Hoje estamos juntos há 5 anos, compramos nossa casa e vivemos felizes com nosso filho. Vc tinha razão, ainda existia Amor, mas por burrice minha, não enxergava isso. Demorei muito pra perceber q sem ela, não poderia conquistar nada. Muito obrigado por me abrir os olhos, mesmo eu não enxergando naquele momento. Q Deus abençoe sua vida e q tenha muito sucesso”.

Ando tão à flor da pele que chorei nas primeiras linhas. Não recordava do fato. Aliás, sempre tive muito cuidado em não ser invasiva, ou mesmo em fazer o papel de protetora da conjugalidade alheia. Divorciar é uma decisão tão difícil, que quando o casal chega diante de uma juíza, não precisa de qualquer julgamento moral ou insistência salvacionista que os leve a reviver as culpas que transbordam quando os amores chegam ao fim.

Possivelmente devem ter dito algo que me levou ao comentário, ou devo ter notado algum gesto, demonstrando que as ideias e os fatos não combinavam naquela situação. Certamente não foi intuição, muito menos profecia. Sou péssima nas previsões do futuro.

Gostei de saber da sorte do reencontro, das portas entreabertas que acolhem o amor e o deixam florescer, mesmo quando parece improvável. Gostei de saber que, mesmo sem querer, uma palavra dita por mim, levou àquela mensagem e àquela lembrança, no momento da reaproximação.

Palavras salvam. E amor também. Ganhei uma história linda para contar, amplificada pela imagem que me capturou, antes que eu sentasse para escrevê-la. No potinho da Bianca, a esperança brotou.

Ainda com a dor latejante do Brasil pulsando na garganta, com a inaceitável recente notícia de que o país resolveu sediar um campeonato pífio de futebol, quando já sepultamos quase meio milhão de pessoas, a respiração chega mais leve com as palavras de amor e de esperança que também explicam o mundo.

Além do mais, hoje nosso Zuenir Ventura chega aos 90 anos. A palavra que nos define é a vida. Adiante!

Legenda: A semente da esperança, enviada por Bianca Ramoneda, vai germinar

*Andréa Pachá é juíza e escritora, autora de, entre outros, “A vida não é justa”