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Arte para combater o negacionismo

20 de novembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o músico José Miguel Wisnik e o jornalista Eugênio Bucci para falarem sobre o tema “Terra Plana Questão Cosmo Política”. A ideia de Afonso Borges, mediador do encontro, em reunir os dois intelectuais no debate surgiu a partir de um texto de Eugênio Bucci, no jornal O Estado de S.Paulo, no qual o autor critica o discurso terraplanista, apesar da comprovação científica da circunferência do planeta Terra e cita, em dado momento a canção de Wisnik, “Terra Plana”. Essa foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa aconteceu no dia 19 de novembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

José Miguel Wisnik abriu a conversa contando sobre a inspiração que o levou a compor “Terra Plana”. “A canção inverte aquilo que esse bordão da terra plana quer fixar, que é a ideia de que vivemos nesse formato de uma moeda”. O compositor explicou que a palavra plana no título representa um verbo e não um adjetivo porque, com leveza, a terra flutua e voa no cosmos e somos levados nesse corpo celeste. “Acho que estamos no mundo da coisa pesada e superficial, que é bruta, grosseira e gosta de ser assim. Então, leveza aprofunda é uma arma nesse sentido, a Terra Plana”.

Sobre o artigo escrito por Eugênio Bucci, Wisnik disse que gostou da resposta proporcionada pela canção.  “O que  eu queria com essa música, mais do que nunca, era que ela provocasse esse tipo de inspiração, de resposta, porque ele viu que aquela música é uma conversa com muitas questões que nós estamos vivendo. É uma música feita com outros e também para que outros planem juntos e foi o que o Eugênio fez com o texto que ele escreveu”. Eugênio explicou que achou a música genial porque funciona como uma espécie de passeata, só que em formato musical. “Acho que é um hino, no sentido de cantar uma coisa muito grave do nosso tempo, é um símbolo de todo o obscurantismo e toda opressão sobre o desejo de saber e mais do que sobre o desejo de saber”.

Bucci reforçou que na contemporaneidade estamos vivenciando um período de negacionismo no qual várias informações sem embasamento científico e factual são postas como verdades e as pessoas que seguem essa linha de pensamento não aceitam nenhuma opinião diferente da que lhes convier. “Isso é uma espécie de irmandade maligna e está na franja de um ataque muito grave, não só contra a democracia, mas contra a modernidade, contra o iluminismo, contra o renascimento, contra a Grécia Clássica”, afirmou Eugênio. Não há como debater com terraplanistas e todos esses negacionismos. Então a gente fica se debatendo, tentando confrontar isso com as armas do bom-senso, da razão, da filosofia, do que for para contestar o que é insustentável”, completou Wisnik.

Revolução

A Cosmo Política é uma vertente de pensamento filosófico que estuda a ciência. O termo é englobado na canção por meio da questão da natureza e do planeta como sendo devastado, assolado por uma ganância que maltrata a terra que plana. “Esse negacionismo é totalmente conivente com o negacionismo climático e como capital avassalador e destruidor, como se houvesse outra terra depois que você jogasse essa fora, porque é o princípio de degradar. Tudo é usado em última análise, é o planeta, é a última mercadoria que é jogada fora. Então, essa questão cosmo política está posta nesse momento”, destacou Bucci.

José Miguel Wisnik aponta que a arte é uma das principais formas na qual pode-se combater o negacionismo, já que como essas pessoas não aceitam o debate, elas próprias precisam perceber e compreender. “A Cosmo Política e a arte tem um papel nisso, tem uma coisa de afirmar o nosso lugar no mundo, o lugar afirmativo da vida. Isso é uma coisa que talvez a gente tenha esquecido de fazer para tentar se contrapor a essa insanidade e eu acho que a afirmação de um lugar que é da cultura humana tem um peso nisso”.

 A música estabelece uma sensação de sensibilidade com o ouvinte ao mesmo tempo que pode se valer de afirmações com duplo significado. “Uma canção é uma maneira de rebater, de desfazer esse lugar, de você deslocá-lo, desarma mais do que se você tentar com as armas da razão, que essa posição desqualifica por princípio”, disse Wisnik. Para Eugênio, a composição de Wisnik proporciona o pensamento crítico e pode combater o negacionismo pois realiza uma ponte amistosa entre ciência e arte. “Muitas vezes a ciência tem arestas graves com relação a Filosofia e a arte. É raro que uma canção e tudo da ciência fiquem do mesmo lado nesse voo contra o obscurantismo”.

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=0G6-wDggWko&pbjreload=101