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As Quatro Estações, no Dia da Consciência Negra

20 de novembro de 2020

A bailarina Ana Flávia da Silva

Por Chico Mendonça

Osvaldo, meu tio-avô, é uma colina. Magro nos preenchimentos do esqueleto, baixa estatura, cabelos brancos, finos e ralos, a barba comprida até o umbigo como a de um profeta. A postura, sempre simplificada, de pernas cruzadas e mãos entrelaçadas sobre o colo, poucos gestos. Nele nada sobra, a personalidade cada dia menor. Já caçou diamantes, enricou duas vezes e gastou tudo com carteado e mulheres nas zonas que há pelo interior de Minas Gerais. Quando o conheci, eu ainda menino, ele porteiro de um hotel em Santos. Me deu uma miniatura de isqueiro, conversou suavidades e se foi. Eu vi, quando atravessou a porta da rua, que ventava sobre sua cabeça e somente lá. Meu tio-avô Osvaldo é uma colina porque do alto de sua presença é possível enxergar toda a humanidade. Foi quem, repetidas vezes, me ensinou a resistir às gavetas e sua arte de separar as coisas do mundo.

Por isso, me assombrei tanto ao final dos cinco dias do Fliaraxá, no Grande Hotel. Primeiro, foi Djamila Ribeiro quem apontou o dedo para certas antologias literárias que, ao destacarem uma existência, como mulheres negras ou escritoras africanas, acabam naturalizando a ausência delas nas antologias gerais de grandes escritores. Consolidam hierarquias, criam subcategorias. Em outro momento, Jeferson Tenório, não por acaso autor do título “O Avesso da Pele”, observou que reunir editorialmente escritores negros significa empacota-los como se fossem réplicas de uma mesma coisa, unidos apenas pela cor da pele. Ao que arrematou o cabo-verdiano Germano Almeida: “Não há uma África, assim como não há uma Europa”. As gavetas!

O meu assombro, na verdade, foi com minha distração, mesmo com tantos alertas. Não as tinha ainda percebido. E não foi a primeira vez que aconteceu, pois que ando o tempo todo tropeçando nas coisas do mundo, susto atrás de susto. Da última vez, quem me chamou a atenção foi Ana Flávia da Silva, uma moça que trabalha no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e faz licenciatura em dança na UFMG. Negra há séculos. Ana ama o balé clássico e sonhava com grandes performances, mas desistiu da carreira de bailarina quando percebeu que não teria espaço para evoluir.

Sim, as grandes companhias de balé clássico no Brasil não possuem bailarinas solistas negras! Apenas as brancas podem interpretar Dulcinéia del Toboso, por quem bate o coração de D. Quixote, ou a princesa Odette, do Lago dos Cisnes, ou Alice no País das Maravilhas, ou Julieta nos braços de Romeu. Não importa se a técnica é perfeita, se a dedicação é plena, se as habilidades são incomuns. Se a pele é preta não pode. O balé clássico é branco desde Luis XIV.

Ana quer escrever uma tese sobre o racismo no balé clássico e contar a história da diáspora de bailarinas brasileiras nascidas com a cor de África. Elas estão pelo mundo a dançar seu talento a partir do fato de que no Brasil não as querem. A primeira foi Mercedes Baptista, empregada doméstica e depois bilheteira de cinema. Em 1948, passou no concurso para o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas acabou nos Estados Unidos, onde aprendeu dança contemporânea, mais apropriada à sua tez. Outra foi Betânia Gomes, primeira bailarina da Dance Theatre of Harlem, companhia de balé clássico composta por bailarinos negros, criada em 1969. No seu posto atualmente está outra brasileira, Ingrid Silva. Mas há muitos outros nomes igualmente importantes: Consuelo Rios, que se destacou como professora de balé clássico; Ana Paulino e Monike Souza, ambas bailarinas sêniores do Jobourg Ballet, da África do Sul; Dandara Amorim, do Balé Hispânico, de Nova Iorque; e Isabela Coracy, do Ballet Black, de Londres, entre outras.

Ingrid Silva, aos 31 anos, juntou-se a dois amigos bailarinos, negros como ela, Ruan Galdino (solista sênior do Jobourg Ballet) e Fábio Mariano (do Collage Dance Collective, do Tennessee) e criaram o Black in Ballet, plataforma no Instagram para dar visibilidade a outros tantos jovens brasileiros que sonham com os palcos, especialmente no exterior, onde há lugar para sua arte. O @blacksinballet possui hoje mais de 15 mil seguidores. Ana me contou tudo isso. E disse: “O preconceito é capaz de não permitir que o outro seja visto por seus talentos, mas pela sua cor. Como que um corpo negro é capaz de suportar esses ataques?”. Eu não soube responder. Não tinha percebido, até então, nos palcos do balé clássico a ausência de uma solista negra. Foi outro susto que tomei. Imperdoável tanta distração.

Osvaldo, meu tio-avô, costuma dizer que só as pessoas inteiras têm em si as quatro estações. Quando acorda de sonho bom, é brisa perfumada a manhã inteira e à tarde chove, levemente para não atrapalhar a visão. Segundo ele, pessoas são facilmente aprisionáveis por pensamentos. E passam a vida sofrendo as separações que criam, seja pelo conceito de si mesmas, seja pelos julgamentos, seja pelo medo. E se deixam ficar o resto de seus anos atadas por um barbante ao pé da cama, cercadas de solidão por todos os lados. Eu me calo e o contemplo. Osvaldo, meu tio-avô, venta sempre que Deus assovia.

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