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Eterno nascimento de Mia Couto

11 de março de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. O moçambicano Mia Couto foi o convidado de Afonso Borges, para celebrar os 59 anos do idealizador do Sempre Um Papo e para falar sobre o mais recente livro de Couto “O Mapeador de Ausências” (Cia das Letras). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa aconteceu no dia 10 de março de 2021, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O autor contou que a inspiração inicial para escrever o livro “O Mapeador de Ausências” foi de um desejo em redigir uma obra que retomasse à sua terra natal, sobretudo da época de sua infância. “Foi um tempo encantado em que eu fui imensamente feliz, um tempo infinito, eu ainda moro lá. É como se eu percebesse que, para voltar a nascer, eu precisava voltar lá e esse era o meu lugar de eterno nascimento”. 

Mia Couto retornou diversas  vezes à sua terra natal, Beira, uma cidade litorânea de Moçambique, para celebrá-la em seu livro. Contudo, ao longo do processo, ele percebeu que seu livro, na verdade, tratava sobre seu pai, uma figura que considerava ausente. “De repente eu percebi que esse mapa, que eu precisava, era feito como se fosse em baixo relevo, como fazendo uma inscrição da ausência. O meu pai foi essa aparente ausência que me deu a grande bússola para eu ser quem sou”. Esse reconhecimento se deu a partir da contemplação do autor com um outro olhar sobre a sua infância e a figura paterna. “Ele foi o pilar, o fundamento, ele nos ensinou coisas que só a poesia pode ensinar porque não era exatamente o que escrevia, mas a maneira como vivia, enfrentava o mundo, nos ensinava a ver aquilo que não era diretamente visível, como dava importância às pessoas invisíveis”, lembra.

No processo de pesquisa e escrita do livro aconteceu um Ciclone em Beira. Mia faria uma viagem para a cidade aquela semana e, por conhecer o piloto, o autor conseguiu visualizar algumas consequências, quando fez um sobrevoo baixo sob a região. “Eu percebi que havia terra só porque haviam copas de árvores e alguns prédios, de vez em quando, com pessoas em cima. Eu ali adivinhei o drama humano, de todos, mais do que propriamente o meu, mas também, por outro lado, me assaltou aquela ideia de que a minha infância desapareceu”.

Após o Ciclope, o moçambicano visitou a cidade e percebeu que, poucos meses depois da tragédia, os moradores conseguiram se reestruturar. “Quatro meses depois já via as diferenças. Uma cidade de pessoas que não tinham quase nada, marchando sobre a água e sorrindo, mulheres com os filhos nas costas. Tinha um espírito, uma força, uma crença que fazia com que se olhasse com dignidade para um futuro qualquer que teriam que reinventar”. Ele disse que ficou muito abalado com tudo que ocorreu, mas presenciar essa recuperação ascendeu a sua esperança novamente. “Isso me deu uma força enorme para eu terminar o livro, para eu perceber que existe essa teimosia, essa capacidade de resistir”. 

A escrita de Mia Couto tem embasamentos históricos que, de alguma maneira, afetam a atualidade, como os embates entre africanos e portugueses. “Eu escrevo assaltado por essa ideia de ressuscitar um passado que se transformou em uma ficção. Talvez as culturas de raízes africanas, porque elas são várias, existe uma capacidade de construir felicidade, laços de solidariedade que não ficam desfeitos perante aquilo que é imprevisível, que está fora daquilo que a gente controla”. O autor incorpora muito dessa concepção em sua vida. “Uma coisa que me ajuda a ser feliz é ter esse convívio sereno com o que não sei, com aquilo que não consigo entender, com aquilo que não consigo prever”.

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=_3WVDDutQek