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Fascismo: a arte de mentir e acreditar na própria mentira

23 de novembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o historiador argentino Federico Finchelstein e jornalista Fernando Gabeira para o debate e o lançamento do livro “Uma breve história das mentiras fascistas” (Vestígio). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 4 de novembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O diálogo teve início com Federico Finchelstein explicando sobre seu livro mais recente, traduzido para o português, que traz a temática ‘mentira’. “Todos os políticos mentem, de alguma forma, e em distintos momentos, mas a diferença com os fascistas é que os políticos, sejam liberais, sejam populistas ou socialistas, não acreditam em suas próprias mentiras. E isso se passa com os fascistas, eles acreditam em suas mentiras”, discorreu o historiador argentino. Ao tratar dessa ideia da mentira fascista, Federico procurou entender por meio da escrita do livro esse elemento central que está acontecendo em nível mundial. “Gente como Bolsonaro, como Trump, gente como Viktor Órban, na Hungria, ou Narendra Modi, na Índia, estão se comportando em termos do que é uma democracia, mas que estão se comportando não tanto como populistas que são, mas como fascistas, estão aproximando o populismo do fascismo”, alertou o historiador.

Fernando Gabeira retoma o pensamento de Umberto Eco presente no livro “O fascismo eterno”, para introduzir seus questionamentos à Federico. “Uma das questões que Umberto Eco afirma é que não é necessário ter todas as condições de fascismo eterno, basta que existam algumas condições para que você possa chamar de fascista um governo, digamos assim, populista”. Para o jornalista, as tecnologias ajudam a disseminar as mentiras fascistas, pois essas “acontecem e se desenvolvem num contexto eletrônico, em que sua velocidade é muitas vezes multiplicada, e seu potencial de expansão também é muitas vezes multiplicado”. “Então, todavia, estamos num parafascismo, e não num fascismo total”, disse.

Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro são destaque no livro de Federico. “Lamentavelmente, esses dois personagens são emblemáticos, de um excesso da mentira e de uma negação do empírico e da ciência. E atuam no caso do fascismo, com consequências fatais”. Para o historiador, os dois presidentes, dos Estados Unidos e do Brasil, respectivamente, são muito parecidos, principalmente, nas “mentiras fascistas, eles creem em suas próprias mentiras”.

Contudo, o autor faz uma ponderação, “o preocupante não é se Bolsonaro é fascista, é que ele querer ser fascista.  Esse perigo em ser fascista em alguém como Bolsonaro também se dá em Trump”. Porque, para ele, os  líderes populistas, gostam de utilizar a mídia sem o intermédio de jornalistas para poderem mentir e assim, manipular os cidadãos. “Então, por um lado, são muito bons em manipular a mídia tradicional, por outro lado, são muito bons em usar a mídia eletrônica, da mesma forma que os manipulam, para também transcendê-los”. E, por isso, de acordo com Federico, tem-se esse ódio, que podemos perceber de alguns presidentes contra o jornalismo independente, “porque o jornalismo independente tem esse ‘erro’ de expor os feitos à população e interpelar aqueles que nos governam”.

Conforme abordado por Federico Fincheslstein, o último elemento central na história da mentira é a projeção, conceito estudado pela psicanálise, que o autor utilizou para compreender os comportamentos e inseguranças de Trump e Bolsonaro. “Em geral, quando se está criticando a outros, está tratando de suas próprias inseguranças, dos próprios temores”. Fato que, conforme o historiador explicou, também ocorreu com Hitler, porque ele também “acreditava em suas mentiras e acreditava que os mentirosos são outros. Por isso, Bolsonaro e Trump irão falar de fake news, mas na realidade quem promove as propagandas e as fake news são eles e não os jornais”.

Para encerrar, Fernando Gabeira conclui que no Brasil os comunistas são considerados socialmente como mentirosos. “Os comunistas, por exemplo, estão por trás da teoria das mudanças climáticas e tudo isso, os comunistas estão também por trás da pandemia, são os inventores da pandemia”. Federico partilha do pensamento do jornalista e complementou: “o comunismo funciona como uma mentira para definir tudo aquilo que é o inimigo”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=ESjPYt7XLR0