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Incidentalidade dos governantes

1 de dezembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o escritor Sérgio Abranches para o debate e lançamento do livro “O Tempo dos Governantes Incidentais” (Companhia das Letras). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 30 de novembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Segundo o autor, a sociedade está passando por um período de grande transição. “A sociedade está em fluxo, o que é uma tormenta para as pessoas porque as coisas sob as quais a gente estava acostumado a lidar estão desaparecendo. A sociedade está ficando cada vez mais digital e as formas de proteção social e de representação política estão deixando de fazer sentido para uma parcela crescente da sociedade”. Para ele, essa mudança provoca reações de medo e insegurança, sensações que foram refletidas na política. “Por isso, assistimos aquelas eleições em que as sociedades estavam muito polarizadas e levaram a vitória de populistas da ultra-direita e ultra-nacionalistas, com o discurso ao mesmo tempo de ódio e uma promessa de que tudo vai ser diferente”, lembra.

Dessa forma, Sérgio chegou ao conceito de governantes incidentais, que se refere a políticos que não tinham muita preparação e apoio popular e assumem repentinamente cargos governamentais altos. “Entram por acaso no poder e saem também de forma meio incidental e me veio essa hipótese de que eles são governantes incidentais”. Para o autor é um tipo de governante novo, que não houve parecido no passado. “Eles foram eleitos em eleições atípicas que rompem com o padrão eleitoral anterior, isso aconteceu aqui, nos Estado Unidos, na Hungria, em outros países. Ao romperem esse padrão, eles conseguem chegar ao poder com promessas muito vãs, que não vão cumprir”.

Conforme Sérgio Abranches, o político que chega por acaso na política, pelo menos na disputa presidencial, resolve se aventurar porque acredita que há muitas pessoas  insatisfeitas com o que está acontecendo. “Ele é ajudado com uma tempestade perfeita que infelicita o país e o ajuda a se eleger. Então, a incidentalidade é que esse indivíduo jamais seria eleito presidente de seu país em circunstâncias outras, sobretudo em tempos normais”.

O autor ainda reforçou que a incidentalidade não está relaciona com o fato de o político ser ou não autoritário e, sim, com a maneira pela qual chega ao poder, de onde vem, como chega e como sai. “Costumo dizer que é mais fácil prever a saída do que a chegada. Isso porque a chegada é imprevista. De repente, você tem uma eleição, está uma tempestade perfeita, e um cara que sai do nada, ganha”.

Sérgio já havia entregado o livro para a editora e logo depois veio a pandemia. Então, ele retomou o livro para fazer um último capítulo falando sobre o período. “A pandemia interrompeu esse processo de polarização radicalizado porque em uma sociedade que está vivendo essa doença desconhecida e que perdeu parentes queridos, não tem lugar para o ódio. A gente começa a sentir uma necessidade de solidariedade, de encontrar o outro, não de rejeitar”. Sérgio acredita que o isolamento provocou muitas pessoas a refletirem sobre várias questões. “Você pode escolher em determinados momentos estar só, mas é completamente diferente de fazer isolamento obrigatório”.

Ao escrever o livro, o autor havia formulado uma hipótese sobre a realidade, mas acredita que agora já é possível analisar sua validade. “Agora, está ficando claro que, o que era hipótese, bastante especulativa e arriscada, o tema central do governantes ocidentais, está se comprovando absolutamente verdadeiro. É sempre um prazer escrever um livro apostando em uma coisa e ela acontece”. Já em relação ao tempo, discussão também central do livro, Sérgio informou que são vários os tempos. “Tem o tempo histórico, o tempo individual, o tempo político, a aceleração do tempo com a sociedade digital”. Os ‘governantes incidentais’ vivem no tempo efêmero. “A nossa experiência desses quatro anos de governo pode ser veloz, se as coisas estiverem indo bem ou ela pode ser em câmera lenta, o desgaste de um governante incidental nessas condições é muito maior”. Por isso, de acordo com ele, a pandemia tem de fato um impacto decisivo na trajetória dos governantes incidentais porque não são capazes de enfrentar a pandemia do jeito necessário para proteger a população minimamente.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=1OBnGrdp84Q