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Indignidade Absurda, por Loyola Brandão

17 de agosto de 2021

Por Ignácio de Loyola Brandão

 

Está acontecendo um enorme equívoco dos negacionistas e apoiadores do presidente (se é que se pode chamar tal homem de presidente) que vêm usando a morte de Tarcisio Meira na campanha anti-vacinação. Mais do que equívoco, demonstração de oportunismo, safadeza e mau caratismo.

 

Usar o nome de um dos maiores ídolos da televisão, cinema e teatro brasileiros em uma campanha contra a vida é repulsivo. Vivo, Tarcisio estaria repudiando. Morto, não tem como. Poucas carreiras foram tão corretas, solidamente construídas. Homem e profissional integro, super star humilde, sem a arrogância de alguns que se arvoram em deuses depois de uma única noveleta. Falo de um homem que conheci há 60 anos, que foi meu amigo. Ele a Glória. Ainda me lembro da noite em que soubemos no restaurante Gigetto que os dois estavam namorando. Namoraram até ele partir.

 

A família não se manifestou, não sei se tenho o direito de fazê-lo. Mas ouso quebrar o protocolo para dizer que sabíamos, nós os amigos, os que partilhavam de seu circulo, que Tarcisio tinha um problema grave, pulmonar.  Cigarros em demasia, é comum na profissão. Tinha ainda um físico sofrido por décadas de trabalho árduo, quedas graves em filmagens e gravaçôes,  uma coluna vertebral  complicada além de outros pequenos acidentes de trabalho e domiciliares. Nossa casa é uma armadiha para nossa idade.

 

Sua vida foi intensa e ele sempre enfrentou dificuldades físicas, mas entrava em cena. Todos soubemos o esforço, por exemplo, que fez para subir ao palco e resistir bravamente por duas horas na reencenação de O Camareiro, peça teatral de Ronald Harwood, direção de Ulisses Cruz. Sabe-se que a Covid  vai direto ao pulmão e tenho certeza que o de Tarcisio não resistiu. Estava vacinado, sim.

 

Mas oito décadas e meia, e o ambiente tôxico de uma pandemia não pouparam um ser humano. Um grande ser humano. Portanto, não deixemos que a indignidade de políticos sem piedade, compaixão, coração e amor à vida usem o nome de Tarcisio para fins  criminosos e negacionistas.