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Isolamento social ou férias forçadas?

3 de maio de 2020

 

 

A convite do jornalista Helvécio Carlos, escrevi “Isolamento Social ou Férias Forçadas”,  publicado no “Estado de Minas”. Ao mesmo tempo, o jornalista Chico Pinheiro gravou um vídeo lendo o artigo; depois ele foi para o podcast Mondolivro, na Rádio BandNews BH. Para ouvi-lo, basta teclar nas plataformas abaixo:

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Assistam a leitura de Chico Pinheiro e, em seguida, o texto, na íntegra:

 

 

 

Não acredito em mudanças associadas a elevações espirituais. A mudança, de verdade, está ligada ao sofrimento. Mas o que mais tenho ouvido ultimamente é o discurso de auto-ajuda-esotérico-espacial-astronômico sobre o impacto do isolamento social na vida das pessoas. Isso não existe.

 

O que no fundo todos ocultamos é que já vivemos, há muito tempo, uma espécie discricionária de isolamento social. Nossas casas têm grades, cacos de vidro nos muros, cercas elétricas e câmeras por toda a parte; moramos anos e anos em edifícios sem conhecer nossos vizinhos; os círculos de amizade dificilmente ultrapassam as relações familiares e profissionais; nossas ações comunitárias e sociais se limitam a contribuições financeiras e inodoras, diferentemente do voluntariado legítimo, presente, de outros países. Ou seja, em tese, o confinamento espontâneo veio por causa de outro vírus: o medo.

 

Me lembro de um poema do querido José Alexandre Marino, que fala das marquises das cidades, que abrigam, sob chuva intensa, pobres e ricos. Pois veio a chuva intensa e colocou todos sob a mesma marquise, fugindo da doença, um vírus arrasador, com o menor tamanho do universo. E vem em forma de defesa, de vingança – já está provado que COVID-19 é uma reação da natureza contra o desmatamento, contra destruição desenfreada do planeta, numa espécie de guerra biológica natural.

 

E nos encontramos trancafiados em casa, onde sempre estivemos e nunca saímos, reclamando das intempéries da escravatura: fazer comida, limpar a casa, cuidar das crianças e, principalmente, do higiene – tarefas antes delegadas às nossas escravas modernas, as domésticas. Nunca é tarde lembrar que esta profissão foi regulamentada no Brasil há apenas 5 anos.

 

Em outros países e culturas, as tarefas domésticas não fazem parte da servidão. Principalmente aqueles que foram atingidos pelas guerras, a consciência do fazer individual se mistura ao coletivo. A nós, atravessados pela rotina destes cinquenta e poucos dias, o silêncio entre paredes oculta as mazelas da dificuldade do convívio interno. A tal “ecologia interior” que Leonardo Boff, um de nossos mais agudos pensadores, escreveu. Se falta concentração, sobram conflitos entre os familiares; se falta colaboração, sobra egoísmo.

 

Este confinamento só vai trazer crescimento, evolução e “mudança” – esta palavra em estado de dúvida -, se houver harmonia, solidariedade, divisão de tarefas e muito, muito amor entre os familiares. Em caso contrário, serão apenas férias forçadas – como muitos estão dizendo por aí.

 

O #MondolivroIndica o livro de Daniel Defoe, “Um Diário do Ano da Peste”, escrito em 1766.