fbpx

Leia como foi a conversa com Lilia Schwarcz e Heloisa Starling no #SempreUmPapoEmCasa

13 de novembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

A Espanhola bailarina e a Covid dançarina

O Sempre Um Papo recebeu as escritoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling para uma  conversa com Afonso Borges sobre o livro “A Bailarina da Morte – a Gripe Espanhola no Brasil”, de autoria de ambas. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 22 de outubro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O diálogo começou com as convidadas contando sobre a ideia de escrever o livro, oriunda do fato de não existirem muitos registros sobre a gripe espanhola. “Isso ascendeu uma fagulha na minha cabeça e na da Helô, sobretudo a ideia do silêncio, porque será que, em um país como o Brasil, que tem tantos cronistas e desta qualidade, ninguém parou para escrever a espanhola”, falou Lilia. Elas queriam entender porque essa parte da história não havia sido contada. “Não tinha uma tentativa de contar a história do Brasil e resgatar um pouco a memória para que a gente pudesse entender o conhecimento que ela gerou”, disse Heloisa Starling.

“A nossa aposta é que o século XX começou depois da 1ª Guerra Mundial e depois da espanhola e, após esse período, houve um sequestro da morte. Nós ficamos livre do corpo doente e foi nessa época que nós nos construímos como sociedade da juventude eterna e uma sociedade que não tem vocabulário para lidar com a morte, não tem espaço para lidar com o luto, não tem espaço para lidar com a solidariedade”, afirmou Lilia. E completou: “o século XXI também não começou ainda, ele vai começar quando nós tivermos debelado a COVID-19”.

Heloisa relatou uma questão que as fez refletir, que está presente em muitos discursos, referindo-se a pandemia do coronavírus como algo inovador mas que, quando foram investigar, se depararam com a gripe espanhola. “Existe um aprendizado que a espanhola nos ensina e que pode fornecer conteúdos e elementos para que a gente possa enfrentar o que nós estamos vivendo hoje. Isso foi esquecido e desapareceu da história do Brasil, não se fala da espanhola, como nós perdemos a memória, nós perdemos o conhecimento que ela gerou”, declarou a escritora.

As autoras procuraram em sua obra traçar o percurso da gripe espanhola no Brasil. Conforme Heloisa Starling, a doença se disseminou de duas formas. “Por trem e  por navio e por onde o navio passa ele vai infectando, aonde ele parou, espalhou o vírus. E o Covid 19 chega de avião”. Como historiadoras, elas destacam a importância de contar essa história para que as pessoas tenham ferramentas para enfrentar o hoje”, comentou Heloisa.

Lilia Schwarcz acredita que um motivo para não ter relatos sobre a gripe espanhola se deve  ao grande pavor provocado nas pessoas, naquele período.  “Talvez esse hiato tem a ver com essa ideia do assombro e, com isso, a impossibilidade de narrar. O que podem fazer os cientistas humanos é demonstrar que uma doença só existe para valer para a sua população quando ela é narrada, quando ela é contada”, acredita Lilia.

A pesquisadora Heloisa Starling também aborda um parâmetro sobre a cidade de Belo Horizonte, na qual, como em todos os lugares, a epidemia foi subestimada. De acordo com a escritora, parte dessa colocação está relacionada ao mito da cidade salubre. “Belo Horizonte tinha 21 anos, tinha sido construída de acordo com as regras mais modernas de construção e os médicos se esqueceram que a cidade era salubre dentro da Avenida do Contorno”, lembrou. “Uma coisa que foi muito importante aqui, que me espanta e que eu acho que a gente perdeu é o fato de que a população apoiou integralmente as ações, primeiro de proteção, e criou formas de solidariedade e pertencimento social, isso que a Lilia chamou de banalidade do bem” completou.

Para encerrar a discussão, as convidadas abordaram sobre as diferenças e semelhanças entre as duas doenças. Lilia apontou alguns parâmetro equitativos. “A história de todas as capitais que nós mostramos, sem exceção, mostra como, assim como a COVID-19 não é democrática, em 1918, as populações afetadas foram os ex-escravizados, que moravam justamente nos arredores das cidades, as populações imigrantes, as populações indígenas e os pobres. E também tem uma outra questão que é muito semelhante com o nosso momento que é o uso político da doença”. Heloisa citou os aspectos que diferenciam as duas doenças. “A partir do momento que a epidemia se instalou e eles [os políticos] não tiveram mais saída, eles não recuaram a ciência, ao contrário. E a segunda coisa que foi diferente: ninguém zombou da morte durante a gripe espanhola”. 

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Facebook e Instagram, e no canal do Sempre Um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=K84F2PCzoms