fbpx

Levantando o véu da realidade

25 de novembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o cartunista e músico Renato Aroeira e a professora e pesquisadora da área das linguagens, incluindo o gênero HQ, Bruna Gabriela Vieira para falarem sobre “Cartum, Desenho e Charge”. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo professor e escritor Rafael Nolli, de Araxá, no dia 24 de novembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Renato Aroeira falou sobre a exposição “Retratos Aroeira”, que traz desenhos de retratos de alguns escritores e escritoras que fazem parte dos nove anos de história do Fliaraxá. “Eu iria fazer caricaturas mas então eu pensei: eu faço caricaturas o dia inteiro de gente que eu detesto, normalmente. Decidi pelos retratos porque são de pessoas que eu respeito, que lidam com a palavra, com a ideia, que respeitam a opinião do outro, que têm empatia, que querem o mundo melhor”, explicou Aroeira. O cartunista lembrou como a literatura o acompanhou desde criança e, por isso, participar desse projeto foi um orgulho. “Fiquei emocionado o tempo todo, tanto porque as pessoas curtiam, mas também porque cada um que eu estava desenhando eu já tinha lido ou corri atrás de alguma coisa para ler”.

Bruna Gabriela é professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa em escola pública, trabalha com os gêneros charge e histórias em quadrinhos e falou sobre a importância da inclusão do estudo desses gêneros em sala de aula. “Devido a sua composição eles são gêneros multimodais, eles trazem um texto verbal e trazem um texto não-verbal. A charge traz a crítica política e abre espaço para trabalho em diversas áreas do conhecimento como a Sociologia, a Filosofia, as Artes e também nas áreas das linguagens”.

Aroeira concorda com Bruna no que diz respeito a educação ser importante para ter uma mente mais aberta. “De certa forma, a educação está na origem e influencia no que o autor desenha”. O cartunista é de uma família de professores e disse que com o tempo foi se obrigando a mudar sua concepção de desenho. “A minha preocupação com os cartuns e com o que eu estou dizendo neles tem muito a ver com a educação. Primeiro porque eu fui educado pela minha mãe, por outros autores, pelo Ministério da Educação, pela Legislação e pelas normas. Segundo também porque eu comecei a minha carreira de chargista em paralelo à ilustração e fui procurado mais de uma vez por gente do movimento negro e mulheres de movimentos feministas para me avisar o que eu estava fazendo de errado”.

Charge na prática

A charge, conforme Aroeira, não é neutra, mas maleável, e no contexto escolar é normalmente usada com uma citação histórica. “As charges que a gente conhece começaram na Revolução Francesa e são a mesma coisa. Todos desenhamos a mesma coisa, eu acho isso fantástico”. Para ele, o lema do chargista é levantar o véu da realidade e mostrar o lado que ninguém está vendo, o lado ridículo, do sem sentido. “Fazer charge é diferente de ilustrar causas, mas basicamente a gente lida com a liberdade de expressão”.

Bruna reforçou que não se pode esquecer a força da linguagem e que por meio dela se consegue organizar a sociedade e conquistar realizações. “O trabalho do chargista é perigoso porque a charge é uma expressão artística e, assim como toda expressão artística, ela tem a pretenção de retratar essa realidade, de expor, de criticar, de satirizar e as pessoas podem se ofender com isso”. Aroeira também percebe que, atualmente, fazer charges é uma atividade de risco. “Existe uma Associação Mundial de Cartunistas, com a qual eu colaboro, que deixa bem claro que ser cartunista é trabalhoso e perigoso em qualquer lugar do planeta”.

Um dos motivos que torna a profissão dos chargistas difícil na contemporaneidade é o crescimento da Cultura do Cancelamento, que mata de maneira simbólica tudo aquilo que diverge do pensamento principal. “É um mundo terrível para quem quer criticar o mundo no sentido de propor mudanças. Porque, por mais que as pessoas estejam ofendidas, a ideia de não responder uma charge com outra charge é errada”, afirmou Aroeira.

Para fazer uma charge Aroeira acredita que é fundamental conhecer para quem vai falar para saber como dizer ao público o que o chargista está querendo transmitir. “A culpa de não entender uma charge não é da pessoa que recebe a charge. A pessoa que a produz precisa saber para quem está falando. Para ensinar você tem que aprender”. Ele também acredita que existe limite do que dizer. “Esse limite quem impõe é a própria pessoa que faz”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=7wDw9iW4QpQ