Mário Vale, o Artista Genial

25 de fevereiro de 2026

 

Um sopro atroz de delicadeza e bom humor atravessa a minha vida, agora. Em uma sala escura, a moviola da memória se movimenta rápido, em frames:

Diamantina, 1981, em cima do bandeijão da Universidade, tinha uma sala de aula que virou quarto. Morei 40 dias com o Mário ali, vivendo aquela loucura criativa pós-Ditadura que o Festival de Inverno da UFMG proporcionava. Repeti a dose em 1982 e 1983.

Casa na Rua Major Lopes, no São Pedro onde funcionava a mágica Oficina Mágica, do Mário e do Marcelo Xavier. Fizeram ali a primeira logomarca do Sempre um Papo. Mais que isso, na pindaíba geral que vivíamos (obrigado pela palavra, Celso Adolfo), me abrigaram ali por seis meses.

Ziraldo, quando viu a marca, passou décadas dizendo que foi ele que fez. Ciúmes de homem é um horror.

Depois, fiz duas edições do Festival Brasileiro de Teatro Amador, por iniciativa da Confenata – Confederação Brasielira de Teatro Amador / Funarte. Não, não existia o Ministério da Cultura. Com Mário Vale vivia primeira experiência imersiva enlouquecida de trabalho: duas noites e um dia inteiros acordados, fechando um jornal do Festival. Tenho como provar.

Daí, quase tudo que fiz na vida Mário Vale esteve presente: os anos que trabalhei no “Hoje em Dia”, os inúmeros eventos do “Sempre um Papo”, noites e mais noites de folia, alegria, bebida e muito mais. Além disso, vivemos juntos no mesmo Retiro das Pedras por quase duas décadas.

Quando tinha livraria na Avenida Getúlio Vargas, criamos juntos uma série camisetas com charges e desenhos de incentivo à leitura, com frases de Fernando Fabbrini, Humberto Werneck, entre outros. Foi uma felicidade conceitual – e um fracasso comercial. Mas ficou.

Me tornei irmão de Monica Sartori, vi seus dois filhos com o Mário crescerem. Dividimos segredos, revelações e “puxamos angústia”, como dizia Hélio Pellegrino.

Sabendo que estava doente, promovi uma exposição em sua homenagem no Flitabira com os cartuns de incentivo à leitura. Outro dia mesmo fiz um Mondolivro, na Alvorada.

Hoje ele descansou. Vou sentir falta daquele abraço apertado, de urso. Daquele jeito estrambótico que ele tinha de cumprimentar, misturando o dedão com o anelar, fazendo um código. Da sua gargalhada enérgica e traçado com a cabeça, em diagonal, como se não soubesse qual era o assunto. Mas ele sempre sabia.

Da sua arte, genial. Falei pouco. Mas ela ficou. Hoje é dia de falar do amigo que se foi. Vai fazer uma falta miserável.

O cartoon de hoje é um papel em branco.

Afonso Borges

 

Mario Vale é mineiro de Belo Horizonte. Artista plástico, cartunista, programador visual, autor, ilustrador e cartunista, com mais de 30 livros infantojuvenis publicados. Possui charges publicadas em diversos jornais e revistas de todo o País, tendo participado de inúmeras exposições de arte, além de ter produzido e dirigido programas de TV. Durante 14 anos consecutivos, publicou diariamente ilustrações e uma coluna fixa no caderno de cultura do Jornal Hoje em dia. Criou 12 desenhos animados que foram veiculados nacionalmente pela Rede Globo de Televisão. Sua obra é agraciada com vários prêmios, entre eles o Prêmio Cartum no XIII Salão Internacional de Humor de Piracicaba, Selo Altamente Recomendável (FNLIJ), Prêmio Jabuti e Prêmio Luis Jardim – FNLIJ – com “A linha do Mario Vale”, eleito o melhor livro de imagens de 2007. Suas obras foram adotadas em vários programas de governos federal, estadual e municipal, sendo selecionado para importantes projetos, como por exemplo o “Clube de Leitura ODS”, da ONU. Durante anos trabalhou com arte-educação, utilizando técnicas de recorte, colagem e dobradura em papel, ministrando oficinas de criatividade para crianças e professores da rede escolar.